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Expresso

Estes miúdos falam com estranhos. E os vossos?

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Nasci numa geração que ainda brincava na rua. Todas as noites a Rua de São Bento – onde nasci e cresci – se enchia de miudagem que depois de jantar gastava os últimos cartuchos da energia a jogar às “escondidas” ou à “apanhada”. Os pais, esses revezavam-se à janela para espreitar os rebentos de quando em quando. Mas antes de sairmos de casa todos nós já ouvíamos o aviso: “não se fala com estranhos”.

 Esta frase é um clássico. Nos meus tempos ainda não se falava sobre pedofilia regularmente nos jornais e o único grande marco que instaurou a paranoia momentânea entre os pais do meu bairro (já andava eu numa idade em que queria outras noitadas) foi o dramático desaparecimento do Rui Pedro. Mas mesmo assim os miúdos continuaram a brincar na rua. E sempre em grupo, o que muito provavelmente também fazia a diferença: não era uma panaceia para os perigos, é certo, mas nunca nenhum mal aconteceu por aquelas bandas. Pura sorte, ou nos anos 80 e 90 os tempos eram realmente diferentes? Não sei. Mas sei que a frase “não se fala com estranhos” – dita com mais ou menos paranoia - continua a fazer sentido.

 A questão é: será suficiente? JoeySalads, um norte-americano conhecido pelos seus vídeos de “apanhados”, decidiu fazer a experiência e o resultado tornou-se  viral nas redes sociais na última semana. O esquema é simples: Joey primeiro aborda mães que estão com os filhos no parque e pergunta-lhes se pode tentar meter conversa com as crianças. Todas lhe dizem que a sua criança não irá falar com ele, mas quando Joey aborda os pequenos com a ajuda de um cachorrinho as reações são alarmantes.

 Vale a pena alarmar os pais?

 Dos Estados Unidos têm surgido críticas, que apontam o dedo aos erros sobre os números de raptos de crianças descritos por Joey no fim do vídeo, muito mais elevados do que a realidade. Outros dizem que Joey está a tentar fazer cliques e publicidade ao seu trabalho através de uma onda de pânico desnecessária entre os pais. E que o perigo de se entrar em paranoia e deixar de se levar os miúdos para o parque também deve ser controlado.

 Todos têm razão. Mas por outro lado, este vídeo é uma chamada de atenção que não devemos ignorar. Todos os que têm crianças nas suas vidas devem espreitá-lo. Enfiá-los no isolamento dos jogos de computador ou cortar-lhes precocemente a curiosidade pelo desconhecido não são soluções viáveis, aliás, têm muito de nefasto a longo prazo. Mas temos de ter noção de que essa curiosidade existe e que, em conjunto com a inocência, fala certamente mais alto.  À falta de um livro de instruções para educar uma criança, o bom senso e o tempo para estarmos realmente presentes na vida deles podem ajudar.

 Embora por cá a larga maioria dos casos de subtração de menores sejam feitos pelos próprios pais, aqui vos deixo o vídeo para pensarem um bocadinho sobre isto.