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Expresso

12 condenados: sinal de mudança?

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Ao longo de sete anos de A Vida de Saltos Altos uma das frases que mais ouvi em resposta a textos sobre discriminação de género em países muçulmanos foi: “Nesses sítios isso nunca vai mudar”. Mas se a notícia que ontem correu o mundo não é mais um sinal de que algo está a acontecer, então não sei bem o que será. Quatro homens foram condenados à morte no Afeganistão, e outros 8 vão passar 16 anos na prisão. Em questão está a morte de uma mulher.

Lembram-se do caso do assassinato de Farkhunda, a afegã espancada até à morte em praça pública no início deste ano? Um ato hediondo, motivado pela acusação falsa atirada para o ar por um homem que garantia que a jovem teria queimado páginas do Corão. Não foi a primeira vez que este tipo de barbárie aconteceu, mas daquela vez o linchamento público da jovem mulher (que ironicamente dedicava a sua vida a ensinar o Corão a crianças) foi filmado por uma testemunha que, ao não conseguir travar a situação, decidiu registá-la e partilhá-la com o mundo enquanto prova. Deixando claro o crime de ódio e a total inação das autoridades presentes.

As imagens chocaram o mundo e levantaram uma onda de indignação. Até mesmo as mulheres afegãs decidiram quebrar as habituais barreiras e saíram à rua para demonstrarem a sua ira, escoltadas por homens com o mesmo intuito e que as protegeram nos seus protestos. Pediram justiça não só por Farkhunda, mas por todas as mulheres vítimas de violência e discriminação sem limites no seu país. Ontem, esse pedido teve resposta.

Lembram-se que em Portugal a mulher devia “prestar obediência” ao marido?

Quatro homens foram condenados à morte e oito receberam sentenças de 16 anos de prisão. Os 19 polícias que assistiram a tudo sem intervir aguardam sentença, que deverá ser conhecida na próxima semana. Mas não é o primeiro desfecho de justiça em casos de violência sobre mulheres em sociedades radicalmente patriarcais. Por exemplo, há poucas semanas os quatro homens acusados do ataque a Malala Yousef foram condenados a prisão perpétua. Na Índia, o caso da jovem estudante que morreu vítima de uma violação coletiva num autocarro culminou com quatro homens também condenados à morte. E com um novo projeto de lei no país, que endurece as punições para agressores sexuais.

Em causa não está a discussão sobre a pena de morte (esse é outro tema). Está sim a tomada de decisões que servem de exemplo, em países onde a justiça raramente é feita neste tipo de casos. É verdade que todos eles foram mediáticos e que provavelmente foi esse o grande fator impulsionador para que medidas fossem tomadas. Mas, mais uma vez, é assim que a roda da mudança também começa a girar. Pode demorar muito tempo até que dê a volta completa, mas o importante é percebermos que não está totalmente parada. E isso não pode ser desvalorizado.

Lembram-se da altura em que a constituição portuguesa dizia que a mulher devia prestar obediência ao pai/marido? Não foi assim há tantas décadas. E hoje estamos aqui. Ainda longe de não enfrentarmos discriminações de género, é certo, mas o caminho que percorremos no que diz respeito aos direitos das mulheres é enorme.