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Expresso

Professores machistas obrigados a pedir desculpa a alunas indignadas

Yukari Miyai / Facebook

Dezenas de alunas juntaram-se espontaneamente num protesto aceso, indignadas por comentários machistas feitos por professores. “A gente não baixa a cabeça”, gritaram elas. No fim, eles foram obrigados a pedir desculpa. Sinais dos tempos?

Escola Técnica Estadual de São Paulo, março de 2018. Numa aula dedicada ao debate sobre mulheres que fizeram história no mundo – tema escolhido pelos alunos – questões como assédio sexual e comportamentos machistas acabaram por surgir na troca de ideias. Contudo, o professor, que deveria dirigir a conversa de forma construtiva, acabou por dizer coisas como estas: por um lado, “se o problema é olhar para as meninas, então melhor usar óculos escuros, porque desse jeito não dá para ser percebido”, por outro, se alguma mulher visse outra a ser molestada, não deveria ajudar porque “ela sabe se defender sozinha”. Quando uma aluna partilhou que naquele mesmo dia (8 de março) um homem a tinha apalpado no metro, o docente respondeu-lhe que “se calhar ele só queria celebrar o Dia da Mulher passando a mão em você”. Na mesma conversa, o mesmo professor passou a ideia de que usar calções curtinhos é estar a pedi-las e que quanto às violações, estas “não acontecem" se uma das pessoas não quiser.

O discurso do professor indignou boa parte das alunas presentes, que partilharam as frases in loco com outras colegas da escola através das redes sociais. Rapidamente se soube que outro professor, no dia anterior, teria feito igualmente comentários misóginos durante uma aula, ao deixar no ar que as limpezas “é trabalho de mulher”. Como diria uma das alunas em entrevista à Globo, “o sangue ferveu” e espontaneamente as alunas começaram a sair das salas de aula em direção ao gabinete da direção da escola para protestar contra este tipo de discurso misógino.

“A gente não baixa a cabeça”

“A gente não baixa a cabeça”, ouviu-se gritar em uníssono nos corredores daquela escola. E esta frase diz muito, tanto. Se há bem pouco tempo qualquer miúda acietava estas frases vindas de um professor ou qualquer outro tipo de superior hierárquico, hoje já se começa a questionar se ouvir e calar é a única opção. Quanto vale a dignidade? Pelos vistos, estas meninas perceberam que vale muito, e que é essencial preservá-la, mesmo que isso exija que aqueles que lhe deveriam ensinar isto sejam os primeiros a ter de ser chamados à atenção. Se durante séculos as normas da sociedade nos disseram e fizeram aceitar que estas eram simplesmente as regras do jogo, hoje há cada vez mais vozes a dizerem com todas as letras que não, eu não tenho de levar com esta porcaria. Não, não eu não tenho de aceitar este tipo de discurso carregado de estereótipos discriminatórios, e que é não mais do que um ataque à minha dignidade.

Outra parte muito interessante desta história é a solidariedade de colegas de outras turmas, que não estiveram nas aulas onde foram ditas estas frases, mas que que se juntaram ao protesto porque, na realidade, estes são comentários que ouvem amiúde nas suas vidas, também noutros contextos. E mesmo que não os oiçam diretamente, empatizam com a necessidade de união no combate a um comportamento totalmente nefasto e desrespeitoso que afeta meninas e mulheres mundo fora. Comentários que banalizam e menosprezam questões como assédio e abuso sexual,, que incentivam a culpabilização das vítimas e que reduzem a figura feminina às lides domésticas são algo simplesmente inaceitável, principalmente enquanto mensagem passada por professores a alunos em plena formação. Se os adultos não parecem perceber isto, ainda bem as adolescentes percebem.

O protesto destas alunas não vai mudar o mundo, é certo. Mas ajudou a marcar uma posição e a mudar o pequeno mundo daquela escola, que acabou por se ver obrigada a exigir aos docentes que se retractassem e pedissem desculpa pelas palavras ditas. Se isto não é um sinal de que os tempos são de mudança, então não sei o que será.