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Expresso

As “ladies night” são uma forma de discriminação?

Acredito que quase todos nós já nos cruzámos com as habituais “ladies night” em bares e discotecas, ou já estivemos numa fila para entrar num destes sítios e a entrada acabou por sair mais barata às mulheres do que aos homens. No Brasil, este tipo de diferenciação com base no género gerou indignação a um homem, que instaurou um processo a uma produtora de eventos por se sentir – e com toda a razão - discriminado. Contudo, este é aquele tipo de situação comum e aceite por todos, que acarreta várias condutas sexistas. Entre elas, uma que ninguém parece querer ver: a utilização da mulher como chamariz para gerar negócio.

O caso deste homem que se sentiu discriminado chegou a tribunal, e a Juíza do Distrito Federal de Brasília, Caroline Santos Lima, tem vindo a dar uma verdadeira lição na interpretação de uma situação também muito comum em Portugal, e que raramente é questionada. Como a própria diria, uma "prática repetida há tanto tempo pode traduzir uma (falsa) aparência de regularidade, de conformidade". Contudo, esta juíza considera-a ilegal, deixando claro que não só a conduta da diferenciação de preços por género é discriminatória, como um “empresário não pode usar a mulher como insumo para a atividade, servindo como ‘isca’ para atrair clientes do sexo masculino”.

Quando falamos de igualdade convém percebermos que privilégios com base no género não entram – nem devem entrar - nesta equação. Igualdade é igualdade, e não funciona só quando nos convém, sejamos nós homens ou mulheres. Pode ser muito agradável poupar uns trocos numa saída à noite, mas isto das entradas mais baratas ou gratuitas para o sexo feminino é altamente discriminatório para ambos os lados. Não faz qualquer sentido os homens serem penalizados no acesso a um estabelecimento ou evento de lazer, tal como não faz qualquer sentido que uma mulher seja beneficiada com um desconto, simplesmente por ser mulher.

A utilização das mulheres enquanto isco não é um privilégio, é uma afronta

Contudo, é preciso ir mais longe e refletir no que está implícito quando se recebe uma oferta como estas. Não sejamos ingénuos: o intuito final de quem dá um desconto aparentemente tão simpático e cortês resume-se a ter lucro ao final da noite. Como se costuma dizer, não há almoços grátis, nem saídas à noite. Talvez esteja na altura de se perceber que este suposto benefício não passa de uma forma rentável de explorar o corpo e a imagem feminina, como elemento que atrai o público masculino, cujos consumos de álcool, por exemplo, são, regra geral, mais elevados. É triste, mas não há aqui qualquer tipo de privilégio, homenagem ou de cavalheirismo quando se fala de atrair o sexo feminino a um ambiente lúdico por um valor mais barato. Há, sim, um esquema de negócio bastante subtil – tal com o machismo inerente - que tem por base a utilização das mulheres enquanto isco. E isso não é mais do que uma afronta.

Estamos basicamente a falar da exploração do corpo feminino como objeto comercial e sexual. E a assumir que, não só a maioria dos clientes do sexo masculino caem facilmente na esparrela criada por tal isco, mas também que vão para uma discoteca (ou qualquer outro ambiente lúdico), não por simples vontade de diversão, mas com o intuito de ir à caça, digamos assim. Quão ofensivo isto consegue ser para ambos os lados? E sendo essa a realidade, até que ponto nos cabe a todos nós refletir sobre as várias formas de sexismo e machismo implícitas, e deixarmos de embarcar no esquema?

Como li algures no meio dos vários artigos escritos pela imprensa brasileira sobre este caso, "se você não paga pelo produto, é sinal que o produto é você”. E isso não é um privilégio, é um ataque à dignidade.