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Uma violação coletiva como forma de se fazer justiça

A história foi parar a alguns jornais indianos e paquistaneses, mas provavelmente não será digna de nota na restante imprensa internacional: uma mulher, grávida de cinco meses, acaba de se suicidar em Gujrat (Paquistão). Mas o que pode levar uma jovem, que carrega um filho no ventre, a imolar-se? Neste caso, tal como em tantos outros casos naquele país, a vergonha e o medo. A criança que crescia dentro de si fora o resultado de uma violação ordenada pelo conselho tribal da sua aldeia, como forma de castigar o seu próprio pai, que alegadamente teria molestado a filha de outro membro da comunidade. Isso mesmo: uma rapariga é violada e o castigo dado ao criminoso é que a sua filha seja violada também. Um tipo de lei bastante comum no sistema panchayat, que por muitas voltas que a lei paquistanesa dê, continua vivo. E bem vivo.

O destino desta jovem mulher – o abuso sexual - é o destino habitual da maioria das mulheres que são castigadas desta forma pelos crimes dos homens das suas famílias. No fim, ora se suicidam porque não aguentam a dor e a vergonha, ora são mortas pelos próprios familiares para que a honra da família não seja comprometida. Lembram-se do trabalho multimédia que partilhei convosco na semana passada sobre este tema? Uma das muitas causas dos tais crimes de honra era o facto de as filhas terem sido violadas. Basicamente, serem abusadas sexualmente significa que tiveram relações sexuais fora do casamento e, portanto, devem morrer. Tão cruel e medieval quanto isto, em pleno século XXI.

A história individual da maioria destas mulheres fica silenciada para sempre no momento da sua morte. E é por isso que momentos como o que aconteceu há uns dias em Karachi, com a participação de Mukhtar Mai num desfile de moda, são tão importantes. Sim, uma vítima de violação coletiva – que segundo as leis da honra familiar se deveria ter suicidado - subiu às passarelas pela mão da estilista Roziba Munib e foi aplaudida efusivamente. Aplausos contra a vergonha que era suposto sentir pelo que lhe aconteceu, aplausos contra este sistema de justiça popular totalmente selvagem e obsoleto, mas que continua a ditar a vida e a morte de milhares de meninas e mulheres todos os anos.

A história de coragem de Mukthar Mai

Porquê Mukthar Mai? Porque é uma referência na luta pelos direitos das mulheres no Paquistão. Porque venceu a vergonha e o medo e exigiu justiça após ter vivido o pior momento da sua vida, em 2002, na aldeia que a viu nascer. Nessa altura, sobre o seu irmão mais novo recaiam suspeitas de manter um namoro ilícito com uma mulher de um clã superior. O conselho da aldeia juntou-se e proferiu a sentença: a irmã do “criminoso” seria violada por um grupo de homens desse clã. E foi o que aconteceu numa sala fechada e escura, enquanto lá fora mais de cem outros homens batiam palmas e assobiavam. Tinha 28 anos. Nas horas e dias que se seguiram, Mai quis morrer. Mas depois do desespero e da dor chegou a coragem. E contra tudo e todos decidiu exigir justiça às autoridades acima das do conselho da sua pequena aldeia.

O seu caso, tão pouco comum, começou por gerar furor na imprensa paquistanesa e rapidamente chegou à internacional. O crime acabaria por chegar ao Supremo Tribunal de Justiça e os seus violadores, mais alguns homens do conselho da aldeia, acabaram por ser condenados. Seis deles à morte. Todos recorreram e, escusado será dizer, acabaram por mal cumprir as suas penas. Mas a história de coragem e determinação de Mukthar Mai serviu de exemplo e de motivação a milhares de mulheres daquele país.

Hoje, com 42 anos, Mai é uma ferrenha ativista dos direitos das mulheres Paquistão. Casou com um homem que a estima e respeita, usou o indeminização que recebeu pelo que passou para construir um abrigo para mulheres na sua situação, recebeu diversas condecorações mundo fora, escreveu um livro com a sua história – que se tornou um best-seller - e dá a cara recorrentemente para falar sobre a opressão feminina no seu país. Agora, subiu pela primeira vez a uma passarela.

Há quem não entenda a importância destas participações em eventos de moda. Como se uma coisa não tivesse absolutamente nada a ver com outra, como se no mundo em que vivemos nos pudéssemos todos simplesmente demitir da responsabilidade que temos perante os problemas sociais que nos rodeiam. É tão mais fácil fazê-lo. Mas se por um lado a moda é uma mundo de glamour e de coisas bonitas, por outro é também um palco forte para fazer chegar imagens e mensagens às massas. Neste caso, começando logo pelo próprio facto de se conseguir fazer acontecer uma Semana da Moda do Paquistão, algo que só começou a ser possível naquele país em 2010, e ainda sob muita controvérsia. Associar glamour e direitos humanos num evento tão mediático como este é simplesmente inteligente.

Num país onde nascer mulher é uma desvantagem que se recebe logo na casa de partida, é cada vez mais importante combater a opressão que as mulheres vivem. E quanto à honra da família, nunca é demais relembrar: não são certamente as vítimas de crimes atrozes – com a jovem que ontem se imolou - que têm de ter vergonha. Como diria Mukthar Mai, “não percam a esperança por causa da injustiça, porque certamente acabaremos por ter justiça um dia”. Esperemos que assim seja