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Expresso

A luta pela igualdade de género precisa mesmo de um super-herói?

A Wonder Woman (Mulher-Maravilha) faz 75 anos e o seu aniversário teve honras nas Nações Unidas com a atribuição de uma distinção à personagem: eleita embaixadora honorária da ONU para o empoderamento feminino. E sim, foi mesmo a personagem, não foram as atrizes que a têm interpretado nas últimas décadas. O empoderamento feminino e a igualdade de género são tópicos que demoraram a estar na agenda internacional, mas que parecem ter chegado para ficar. E isso é bom, muito bom sinal. Contudo, esta é uma medida pouco consensual e não é de estranhar que até já tenha surgido uma petição que exige a sua revisão.

Vamos por partes: recorrer a uma personagem de ficção, quando existem tantas mulheres reais com trabalho feito em prol dos direitos humanos, parece-me de certa forma redutor. Quase uma maneira de continuarmos a dizer que as mulheres de carne e osso não têm estrutura para tal posição, quando a verdade é esta: não existem super-mulheres, tal como não existem super-homens. Existem, sim, pessoas da vida real que são verdadeiros heróis. Felizmente, há muitos homens e mulheres mundo fora que o são, sem precisarem de capa e espada. Então porque será que precisamos de uma personagem de ficção para dar a cara na luta pela igualdade de género?

Por outro lado, vamos buscar uma heroína que ao longo das décadas surge sempre híper-sexualizada. Mais uma vez, o uso e abuso dos habituais estereótipos relacionados com o corpo feminino, colocando a heroína do empoderamento feminino com determinada aparência, tão pouco semelhante à das mulheres de carne e osso que partem para o terreno e que salvam vidas todos os dias. Nada contra decotes reveladores, peitos volumosos e coxas possantes à mostra, entendam, mas parece-me que voltamos a recorrer à imagem preguiçosa e objetificada que se atribui recorrentemente à figura feminina e que a própria ONU tem tentado combater nas suas campanhas. A mensagem inerente a estas imagens é invariavelmente a mesma: para serem importantes e se destacarem nas suas vidas não bastam os seus feitos ou as suas capacidade, as mulheres têm de ter a aparência hollywoodesca de sex symbol. Como diriam alguns manifestantes durante a cerimónia da ONU, continuamos a privilegiar a personificação da ideia da menina de calendário. Da mascote.

Mais do que uma boneca, precisamos de um mulher que dê a voz às mulheres

Esta é uma mensagem controversa e, diria eu, com um lado muito negativo quando a intenção é o empoderamento feminino de mulheres e, principalmente, de meninas. O que se pretende dos homens e das mulheres do futuro é que sejam cada vez mais independentes, capacitados e confiantes, conscientes dos seus direitos, livres nas suas escolhas e que tenham acesso a iguais oportunidades e dignidade nas suas vidas, sem que a aparência ou o género entrem nesta equação. E sim, por mais tempo que possa demorar, isto é possível. Mas enquanto olharmos para a igualdade de género como algo tão inatingível e complicado que ainda exige a presença de uma heroína com super poderes para lutar pelos direitos básicos das mulheres, talvez esse processo não acelere como deveria (já para não falar do lado simbólico da bandeira norte-americana associada à personagem, mas essa reflexão fica para outro dia).

Por outro lado, também não é a primeira vez que uma personagem ficcional recebe a distinção de embaixador Honorário das Nações Unidas. Enquanto estratégia de marketing, podemos admitir que até pode trazer alguns frutos, não só dado o seu mediatismo, mas também pela mensagem de luta pela justiça associada à Mulher-Maravilha. Contudo, corremos o risco de ser um mediatismo que fique pela rama, em vez de ir raiz à questão. Aliás, mais do que mediatismo ou do que uma tentativa de aproximação aos públicos mais jovens, talvez fosse importante terem uma pessoa de carne e osso que durante o próximo ano pudesse dar voz às mulheres do mundo inteiro. Que elucidasse quem ainda não percebeu a importância deste tema e que questionasse quem tem de ser questionado no que diz respeito à luta contra a discriminação de género. Algo que, já agora, é um dos 17 objetivos da ONU até 2030 no caminho para um planeta mais sustentável.

Veremos nos próximos meses que frutos esta distinção vai dar. Mas o importante, parece-me, é que o tema não caia da agenda. Para o bem de todos nós.