Siga-nos

Perfil

Expresso

Quarta-feira negra na Argentina

  • 333

“Ni una mas”, “nosotras paramos”. Estas poderão ser as frases mais ditas pelas mulheres argentinas, que hoje foram convocadas a fazer uma greve nacional simbólica, seguida de uma marcha, para chamar à atenção do país para a tragédia da violência de género. Esta é uma quarta-feira negra, de luto por todas as mulheres 286 mulheres que foram assassinadas Argentina, em 2015. E uma homenagem à adolescente Lucía Perez, cuja morte macabra está a chocar a América do Sul.

No passado dia 8 de outubro, Lucía Perez, de 16 anos, foi brutalmente assassinada por dois homens, um de 23 (com quem a vítima aparentemente mantinha uma relação de intimidade) e outro de 41. A adolescente marcou encontro com ambos para comprar marijuana, mas a dupla acabou por a convidar a experimentar cocaína. A miúda acedeu. Depois de a drogarem, os dois violaram-na repetidamente por via vaginal e anal. Não satisfeitos com a penetração dos pénis, usaram também um bastão. Os ferimentos causados por este ato repugnante e cruel foram demasiado graves. Quando perceberam que a jovem podia morrer, os dois violadores levaram-na para o hospital, onde tentaram convencer os médicos de que tinham encontrado a jovem com uma overdose. Mas Lucía já estava morta.

Os requintes de crueldade deste crime chocaram a Argentina. Os dois homens foram detidos e a própria promotora do caso disse publicamente que esta foi “uma agressão sexual inumana" e que “nunca havia visto nada de parecido”. O assassinato de Lucía Perez é realmente chocante, mas ela não foi a única mulher a perder a vida nos últimos oito dias na Argentina. Ao todo, foram cinco. Natalia Padilla, 41 anos, foi morta à punhalada dentro do próprio carro. Samantha Yoerg, 22 anos, foi encontrada morta num canavial com um traumatismo cranioencefálico: o marido acabou por confessar que a matou à paulada após uma discussão. María Elisa Acuña, 63 anos, foi encontrada com a cabeça cortada à machadada pelo marido, que pôs assim fim a uma suspeita de infidelidade. Magdalena Ramírez, 34 anos, foi encontrada morta junto a um rio. O amante, que não terá aceite que ela quisesse acabar com a relação extramatrimonial, suicidou-se após matá-la com um tiro na cabeça.

A cada 30 horas uma mulher é assassinada na Argentina

Lucía, Samantha, Natalia, Elisa e Magdalena são apenas cinco das mais de 200 vítimas de femicídio que todos os anos acontecem na Argentina. As contas são estonteantes: a cada 30 horas uma mulher é assassinada naquele país, números que conseguem ser ainda bem maiores quando pensamos noutras nações vizinhas. A violência de género, garantem dezenas de ONG’s do país, é um problema que merece especial atenção. E dados oficiais do Ministério de Segurança do país, citados hoje pelo Clarín, confirmam que entre 2008 e o ano passado, as agressões contra a mulher aumentaram 78%.

Ainda segundo o maior jornal argentino, o Registo Nacional de Femicídios traçou um mapa desolador da violência contra o sexo feminino na Argentina: a maior parte delas é morta por cônjuges ou ex-cônjuges e em 20% dos casos estas já haviam denunciado seu agressor antes de serem assassinadas. Apenas 5% dessas mulheres foram vítimas de violência por parte de estranhos.

Se olharmos para a realidade mundial, a conclusão vai dar ao mesmo: segundo a ONU, mais de 50% dos femicídios globais são levados a cabo por parceiros íntimos ou membros da família. No caso dos homicídios com vítima de sexo masculino, essa percentagem desce para 6%. Em Portugal, no ano passado, um total de 29 mulheres foram assassinadas e outras 39 foram vítimas de tentativa de femicídio. Em 87% dos casos, estas mulheres mantinham relação de intimidade com o agressor

Quantas mais mulheres vão ter de ser assediadas, agredidas, violadas, torturadas, traficadas ou mortas para percebermos que a violência de género é realmente uma tragédia mundial e totalmente transversal? Pegando na hashtag que hoje marca esta quarta-feira negra da Argentina, “NiUnaMas”.

Assim eu gostava que fosse possível.