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Expresso

Árbitra expulsa adepto que a manda ir “lavar pratos”. Exagero ou sensatez?

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d.r.

Espanha, encontro futebolístico entre o EU Valls e o Cambrils Unió. Marta Galego foi a profissional escolhida para arbitrar aquela partida. Para muita gente na bancada, a escolha foi logo motivo de ‘su ru ru’, porque isto do futebol ainda continua a não ser visto como uma coisa para mulheres. Vinte minutos depois de começar a partida, um adepto não gosta de uma das decisões da árbitra e manda-a “ir lavar pratos”. Até aqui, nada de inusitado. Os insultos no futebol parecem estar instituídos como um género de tradição que faz sentido. Aliás, são muitas as situações em que as bancadas dos estádios de futebol se transformam num género de ‘vomitódramo’ para as frustrações do dia a dia, um sítio onde há uma tendência para se ser bully, sem qualquer pudor. E onde isto de andar à tareia parece até uma coisa normal, tal como intimidar o próximo, com direito a aplausos no fim. No mínimo, (perdoem-me a franqueza) um comportamento deveras doentio, que é aceite amiúde como um hábito normal, motivado pelo tal fervor próprio do futebol.

O que foi inusitado neste jogo arbitrado por Marta Galego, foi o facto de esta ter interrompido a partida para exigir a saída do adepto do recinto. Porquê? Porque se sentiu ofendida. E porque sabe de cor que não só a lei do seu país, como as próprias regras de conduta dentro de recintos desportivos, condenam as ofensas e as injúrias. Se à partida, muitos dos que estão a ler isto vão dizer já que esta atitude é ‘um exagero’ ou que as ‘mulheres são umas flores de estufa que não aguentam um insulto’, fiquem a saber que a restante equipa de arbitragem a apoiou e que todos eles acabaram por ser ovacionados de pé, pelos adeptos nas bancadas.

O momento ficará provavelmente na memória de quem o presenciou e se calhar vai ajudar a que se pense duas vezes antes de se proferir uma ofensa gratuita, algo que parece ser menos condenável só porque se está dentro de um estádio de futebol. É fácil dizermos que os árbitros lidam com insultos desde que o futebol é futebol, e que se se insurgissem cada vez que um adepto os insulta, não haveria jogos com público. Mas desculpem-me que vos diga, também seria fácil um árbitro fazer exatamente o que Marta Galego fez e exigir respeito. Só que isso nunca acontece e, enquanto não acontecer, a dignidade nunca fará parte da equação.

“Filho da xxxx” ou “vai pra xxx da tua mãe”: afinal, quem estão a ofender?

Ofender deliberadamente um profissional que está dentro das quatro linhas do campo, a exercer não mais do que as suas funções, não é uma questão de liberdade de expressão, nem muito menos de opinião. Há quem ainda se desculpe, dizendo que não passa de um calão que só reflete a paixão pelo futebol. Lamento, podem floreá-lo da forma que quiserem, mas não passa de uma forma de insulto. Sim, que sempre existiu nestes eventos. Mas talvez já esteja na altura de se quebrar a tal tradição que, na cabeça de muitos, legitima o desrespeito nos recintos desportivos, sem esquecer os espectadores que também são tantas vezes alvo de ameaças e intimidação quando pagaram um bilhete para assistir a um jogo. Terem de lidar com semelhantes comportamentos não faz parte do espetáculo, certamente.

No caso de Marta Galego, junta-se ainda o lado sexista do insulto que lhe foi proferido. Não me lembro de algum dia um árbitro ter ouvido algo do género. Até porque “vai lavar pratos” não é mais do que uma apologia ao suposto papel da mulher, que, pois está claro, não serve para mais do que lides domésticas, é este o raciocínio primário. Se seguirmos essa linha de raciocínio, uma mulher a arbitrar uma partida de futebol, ainda por cima disputada por homens, até parece quase uma ofensa. Mas se pensarmos bem, o sexismo nem sequer é novidade nos insultos feitos a jogadores e árbitros. Alguma vez pararam para pensar que, entre as ofensas mais gritadas, estão os habituais “filho da xxxx” ou “vai pra xxx da tua mãe”? Mesmo que inconscientemente, o alvo da larga maioria dos insultos dirigidos a homens são, na realidade, feitos a mulheres. Irónico, não?

Não me parece que a partir de agora toda a gente vá interromper jogos de futebol para exigir respeito. Mas se de vez quando isto acontecer, talvez se comecem a questionar e refletir comportamentos que simplesmente não fazem sentido. E só quando se começa a questionar e refletir é a que a mudança das tais coisas “que sempre foram assim” pode acontecer. Por acaso, foi uma mulher a fazê-lo desta vez, mas era mesmo muito interessante se mais profissionais do futebol o fizessem, independentemente do género.