Siga-nos

Perfil

Expresso

&conomia à 4ª

O espírito da dádiva

Quando neste Natal trocarmos presentes, estaremos a retomar uma prática milenar e transversal a inúmeras culturas. Acima de tudo, estaremos a afirmar-nos como seres sociais.

A época do Natal é, na nossa sociedade, um período de intensas práticas rituais. E uma dessas práticas, em que quase todos estaremos envolvidos, é a troca de presentes. Fá-lo-emos no seio da família; muitos de nós, entre amigos; nalguns casos, entre colegas de trabalho; e por vezes com pessoas com quem mantemos laços sociais relativamente mais distantes. Os presentes poderão ter um valor material maior, menor ou insignificante. Mas todos, ou quase todos (exceptuando quase só os mais excluídos), participaremos nesta prática de algum modo, e dedicar-lhe-emos tempo, energia e eventualmente dinheiro.

É uma prática com algumas características típicas, ainda que raramente reflictamos muito sobre elas. Em primeiro lugar, é em geral diádica e de algum modo recíproca. Normalmente damos presentes às mesmas pessoas de quem recebemos - e uma falta de correspondência recíproca a este nível cria um desconforto, um desequilíbrio, que tem de ser resolvido, sob pena da dádiva não se repetir em ocasiões futuras.

É uma prática que é quase sempre mediada por um objecto. Através dela o que fazemos verdadeiramente é exprimir afecto (nalguns casos), ou pelo menos afirmar e reforçar vínculos sociais (sempre). Mas o objecto é quase sempre o símbolo, o fetiche, que garante a visibilidade e a palpabilidade do vínculo social expresso. O objecto material, no fundo, torna mais real o reforço do vínculo imaterial.

Por outro lado, fazemos questão que a relação de valor entre os presentes trocados seja de algum modo incomensurável, impossível de medir ou exprimir com precisão. Esquecer a etiqueta do preço num presente comprado em qualquer lado é considerado uma falha grave - precisamente porque põe em causa essa incomensurabilidade, essa imprecisão do "saldo" das obrigações recíprocas que, em si mesma, consolida o vínculo entre as partes.

E é uma prática que repetimos ano após ano, não apenas por causa da pressão social para o fazermos (que existe), mas também porque sentimos prazer e satisfação em participar nela. Não me estou a referir ao esforço, para muitos extremamente penoso, de obter os presentes a oferecer. Esse apenas mostra aquilo a que estamos dispostos a submeter-nos para participar na prática. Refiro-me, isso sim, à prática propriamente dita: a troca de presentes, a dádiva. É uma satisfação que não se reduz ao prazer de receber, nem ao prazer de dar - não é puramente egoísta nem puramente altruísta. Reside em ambos ao mesmo tempo e ainda em algo de mais amplo e mais central: trata-se do prazer de participar numa prática recíproca, que afirma e reforça os laços com aqueles que nos rodeiam. Não estamos sós, e isso tranquiliza-nos.

Com diferentes matizes, mas assumindo tipicamente as características que referi em cima, a prática da dádiva é transversal à generalidade das sociedades e culturas. Marshall Sahlins, antropólogo norte-americano, dedicou boa parte do seu livro "Stone Age Economics" ("Economia da Idade da Pedra") ao estudo da dádiva, das suas características e das suas modalidades. Branislow Malinowski, um dos "pais fundadores" da antropologia, escreveu sobre a economia da dádiva entre os nativos das ilhas Trobriand, no Pacífico, tendo sido posteriormente criticado por Marcel Mauss, sobrinho de Durkheim e eminente sociólogo clássico. Os potlatch - rituais de dádiva complexos e altamente codificados entre os índios norte-americanos da costa do Pacífico - foram durante décadas um tema clássico de monografias e estudos antropológicos.

Apesar de associados à Antropologia, ou quando muito à Sociologia, todos estes estudos e ensaios são também Economia, na medida em que sistematizam conhecimento sobre práticas do foro da economia - isto é, relativos aos aspectos materiais da reprodução das sociedades. Reprodução essa que combina lógicas mercantis, lógicas de reciprocidade e lógicas de redistribuição centralizada, e que assenta sempre em vínculos sociais. Quer estejamos a falar dos nativos das ilhas Trobriand, dos índios da costa do Pacífico ou da nossa própria sociedade - tal como revelado uma vez mais pela aparente, mas apenas aparente, "irracionalidade" desta prática ritual a que a maioria de nós se dedicará neste Natal.

Assim, quando por estes dias trocarmos presentes, qualquer que seja o seu contexto ou o seu valor, detenhamo-nos por um momento para apreciar a riqueza, a subtileza e as origens ancestrais da prática que estaremos uma vez mais a retomar. Estaremos a desmentir a crueza e falta de sofisticação do "egoísmo antropológico" como modelo do comportamento humano. Estaremos, acima de tudo, a afirmar-nos como seres sociais. Ainda bem.

Boas festas aos leitores.