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Expresso

Mais uma não reforma

A zona Euro vai ter mais uma não reforma no próximo mês. Os interesses europeus que beneficiam do desequilíbrio estrutural atualmente inscrito no desenho jurídico do Euro não vão abdicar dos privilégios que daí lhes advêm.

Aqueles que perderam a guerra original pela alma da moeda única, que nasce como instrumento de disciplina e não de crescimento, vão continuar a perder. A posição oposta ficou plasmada nos tratados e é tratada como o ponto de partida de qualquer conversa. Como é necessário consenso, quem quer a mudança parte sempre em desvantagem.

Enquanto não houver um realinhamento político definitivo, vamos continuar a gerir esta situação funesta.

Na gestão da última crise o mantra foi mantido. A austeridade era a única solução. A obsessão com os limites fiscais dominou as soluções e matou o debate, olhando-se apenas a uma consolidação mais aparente do que é real, a qualquer preço, e o mais rápido possível dos orçamentos. O crescimento. O emprego. As pessoas. Tudo isso foi, como não podia deixar de ser, mais uma vez sacrificado.

Desses sacrifícios resultou a sobrevivência da UE e da moeda única que, voltando um contexto económico um nadinha mais favorável, voltaram a deixar de fazer sentir o peso da sua inerente injustiça de forma tão aguda.

Não nos iludamos. Com a persistência do domínio alemão dos mercados de exportação, só possível porque o Euro absorve o que seria a inelutável valorização da moeda nas trocas com o exterior e o aumento de salários e preços – a famigerada inflação – no interior da Alemanha, e dada a recusa alemã de ajustar o seu próprio modelo económico, o futuro da zona euro é voltar a repetir o passado.

Como Itália voltou a mostrar a semana passada, o Euro convive cada vez pior com a Democracia, sendo instrumento de alimento para soluções radicais e populistas, que vão crescendo por essa Europa fora.

Para além das habituais pressões de bastidores e um ou outro reparo público a como é que se “ensina” os italianos a votar, o que mais impressiona é o mantra de que os problemas são dos Países, e não da União.

“Parem de culpar a Europa, os italianos têm de cuidar das regiões mais pobres de Itália, e isso significa mais trabalho, seriedade e menos corrupção” disse Juncker. Como já tinha sido dito à Grécia, a Portugal, a Chipre, à Irlanda, a Espanha.

O problema nunca é o nós, é sempre o vocês. Vocês que são pouco produtivos. Vocês que não se organizam. Vocês que isto e aquilo.

Esta não reforma não mudará nada do essencial. Continuam a faltar instrumentos políticos para atacar a recessão e o desemprego, e para promover o reequilíbrio da zona Euro.

Esta teimosia acaba de uma maneira só: uma deflação continuada, mais ou menos acentuada que torna, a prazo, os custos de permanecer no Euro intoleráveis ao ponto de ser a Democracia que fica em causa. A UE ainda se vai matar a si própria, às mãos dos interesses alemães. Os benefícios do Euro estão cada vez menores e os custos cada vez mais altos. Um dia, e não vai ser bonito, teremos de acertar essas contas. A perspetiva de desintegração monetária e o decorrente colapso da união já não podem ser ignorados e já não são o cenário mais assustador.

Um golpe de asa é sempre possível em política. Mas para que ele aconteça temos de aceitar, desde logo, que ele é necessário. É aqui que estamos. O tempo não é para optimismos.