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Expresso

Que emprego?

Um dos bons sinais sobre o vigor e ritmo da recuperação do emprego em Portugal, indicador em que temos batido mesmo as projeções mais otimistas, é que começa a ser central discutir já não só como criar emprego, mas como criar emprego de maior qualidade, o que se tem de traduzir em contratos justos e remuneração adequada.

Primeiro que tudo, contratos justos. No mundo de hoje o paradigma de que o contrato justo é o contrato sem termo e tudo o resto são contratos menores, com natureza precária, faz menos sentido do que há 20 ou 30 anos atrás. Menos importante do que manter a linha de combate aí é garantir que em todas as modalidades contratuais se criam mecanismos legais que compensem o desequilíbrio entre as partes.

Um bom sinal de que esse equilíbrio está por fazer é o facto de os salários se manterem teimosamente baixos, mesmo com uma relação entre a procura de trabalhadores e a oferta de trabalho que claramente induziria uma subida destes.

É certo que alguns sinais tímidos se vão vendo – as empresas de segurança privada, um sector pautado por salários baixos – estão a fazer recrutamento recorrendo a publicidade. Já lá iam uns anos.

E também é verdade que já se começa a ouvir o habitual lamento dos empresários de que as pessoas não querem trabalhar – um substituto oportuno e oportunista para a realidade de que o que há é dificuldade em recrutar pessoas com aqueles salários e, seguramente, muito menos dificuldade com salários maiores.

Eu também me posso queixar da falta de vontade dos empresários de me fornecerem serviços de hotel de 4 estrelas ao preço noite de um hotel de 2 estrelas. Faz mais ou menos o mesmo sentido.

Uma parte substancial do ajustamento da economia portuguesa fez-se pela perda real de salários. Não faz sentido que, numa altura em que as contas públicas pesam muito menos, o cenário externo está muito melhor e até a Banca parece ter passado o ponto pior da sua solidez, uma parte dos ganhos da recuperação económica não seja encaminhado para quem suportou os maiores sacríficos: os trabalhadores.

Isto também se aplica aos funcionários públicos, embora seja de ter em conta que não se pode resolver em dois anos uma década de congelamentos salariais, cortes nos vencimentos e aumento do IRS. Há que saber dar passos certos e seguros. Um aumento este ano, seguido de novos 10 anos de congelamentos e cortes não serve ninguém. E não serve, de certeza, os trabalhadores. Haja prudência.

PS – Num País sem cultura de exigência há sempre quem se considere intocável e se sinta violentamente apoucado ao mais leve sinal de escrutínio. A propósito deste texto o Fórum para a Competitividade entendeu fazer este outro. Só tenho três notas a deixar:

1) Dar como adquirido que há consenso em torno da decisão do Eurostat, quando a autoridade estatística nacional – o INE - a contestou numa rara e clara nota pública de discordância é uma omissão nada inocente;

2) Tendo citado ipsis verbis os documentos do próprio Fórum o meu suposto erro foi ter citado aqueles e não outros - quiçá os que os autores da nota prefeririam ter indicado para o efeito como, aliás, fazem no seu texto. Estão no direito deles. E eu no meu;

3) Quando ao argumento de que muitos outros erraram as suas previsões - e por tanto ou mais - se calhar já se debruçavam sobre isso. Alguma causa terá.

Por fim, uma palavra ao Expresso, que nunca me tratou senão de forma irrepreensível – mesmo quando critiquei o próprio jornal nos meus textos - e que não merecia que lhe dessem o que fazer. Há cada vez menos jornalistas nas redações, e o tempo deles é precioso. Sinto-me aqui em liberdade para pensar, em público, e com total independência. Isso não está para venda nem se sujeita a pressões. E enquanto assim for, e aqui me quiserem, assim será.