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Expresso

Criptocoisas II

Aqui há uns meses, quando a valorização das criptomoedas parecia imparável escrevi aqui: “Num mundo de retornos baixos os cantos do mercado que ainda oferecem rentabilidades (por muito pouco fundadas na Economia real que sejam) são inundados por quem quer ganhar muito, muito depressa. É assim que se criam bolhas.”. Poucas vezes um artigo gerou mais acrimónia. Quem está investido na fé não consegue não proselitar cegamente todos os outros. E como o valor disto tudo depende da fé, os agnósticos são mal recebidos, Faz parte.

Compreende-se o desespero de quem vê a sua reforma futura e as suas poupanças passadas erodidas pela falta de rentabilidade dos investimentos disponíveis. Mas o desespero é mau conselheiro. Só isso explica que em Inglaterra tenha sido preciso proibir usar cartões de crédito para adquirir criptomoedas.

Desde novembro, o valor da moeda mais conhecida, a Bitcoin, ascendeu a quase 20.000 dólares e vale, hoje, metade disso, tendo perdido quase todos os ganhos desde aquela data, quando escrevemos sobre os perigos de entrar nesta aventura, e quando se iniciou o frenesim especulativo que a levaria a duplicar de valor antes de o perder novamente:

Os reguladores Europeus e nacionais, do Banco de Portugal à CMVM, da Autoridade Bancária Europeia (EBA), à Autoridade Europeia dos Valores Mobiliários e dos Mercados (ESMA) e passando pela Autoridade Europeia dos Seguros e das Pensões Complementares de Reforma (EIOPA) emitiram esta semana alertas, e não pela primeira vez, de que as moedas virtuais apresentam um elevado risco e não oferecem qualquer grau de proteção aos consumidores.

É isto que é preciso entender: as criptomoedas não são moeda. São investimentos altamente especulativos, sujeitos a volatilidade extrema, risco de bolhas, com total inexistência de proteção, nomeadamente contra fraudes, burlas, ataques informáticos ou falência dos intermediários que pululam por essa Internet fora.

São, ainda, muito pouco líquidos, o que pode implicar que, num crash, podem faltar as opções de saída, com risco de não conseguir liquidar a posição de volta para euros (ou dólares) e não existe transparência na formação dos preços, que são controlados, em alguns casos, por uns poucos milhares de investidores que se comportam como price-makers, à custa de todos os outros. Para termos uma ideia, há poucos meses apurou-se que 1000 grandes contas controlam mais de 40% da moeda em circulação. Isto não é um mercado funcional. É outra coisa. Por isso “o potencial de desvalorização é infinito, porque debaixo destas moedas não há um chão de ativos reais ou de uma economia tangível. Do nada vêm, ao nada regressarão.”.

Coisa diversa é a tecnologia que as permite, e que pode vir a ter aplicações importantes e geradoras de reais ganhos económicos. Mas confundir uma coisa com a outra serve apenas para nos enganar a todos.

Reiterando conclusões: “Em suma, se sabe que não percebe, não compre. Se percebeu não preciso de lhe dizer: não compre na mesma. Para todos os outros, boa sorte: se entrarem e saírem antes do momento fatal podem ganhar muito dinheiro. Bernie Madoff também fez muitas fortunas antes de arruinar todos os outros.”.

Não me venham, portanto, com a associação de lesados das criptomoedas daqui a uns anos. Estão fartinhos de serem avisados. Agora, até, pelas autoridades competentes, que mais atraso menos atraso, estão a começar a acordar para a vida. Quem não quiser ouvir, assuma por inteiro os riscos. Assim como assim, não andam por aí muitos voluntários para socializar os lucros, enquanto os têm.