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Expresso

Não é o mérito ... é a ganância

A OSFAM, uma ONG global nas áreas da pobreza e desigualdade publicou um interessante relatório há dias (disponível aqui, e que tem muito mais pontos de interesse que os que aqui se abordarão).

Podem gostar ou não da metodologia da OXFAM – ou da organização em causa – mas ela tem a vantagem de ser pública e, logo, sindicável, e indica as fontes para os seus dados, entre elas o Credit Suisse, esse perigoso agente do anticapitalismo.

Na sua introdução surge este dado: “No ano passado, ocorreu o maior aumento de bilionários na história, mais um a cada dois dias. Os bilionários viram sua riqueza aumentar em US $ 762 mil milhões (billions no original) em 12 meses. Este enorme aumento poderia ter acabado com a extrema pobreza global sete vezes. E 82% de toda a riqueza criada no último ano foi para o topo 1%, enquanto os 50% inferiores não viram nenhum aumento”.

Se isto não nos chocar um bocadinho estamos mais doentes do que pensamos. 2.043 pessoas, nove em cada dez são homens, são bilionários. O conjunto dos 1% mais ricos entre nós reteve para si 82% de todo o crescimento da riqueza global no último ano. Os 50% mais pobres não viram nada do aumento de riqueza, nesta era de salários estagnados, e os restantes 49% receberam apenas 18% do crescimento da riqueza.

Isto não é recompensar os melhores, como nos costumam dizer. Isto é ganância pura. Isto não é meritocracia. É cleptocracia. O aumento de riqueza foi gerado pelo trabalho de muitos. Os seus frutos, apropriados por uns poucos. O sistema, temos de o dizer, está irremediavelmente desequilibrado.

É verdade que a liberdade de comércio internacional tem tirado milhões da pobreza mais pobre, mas isso tem sido feito com um preço bem elevado: por cada euro para os pobres, quem já detém capital fica com 10 ou 100 ou 1000. Mais, se o crescimento fosse distribuído sem o contínuo agravar das desigualdades, mais 200 milhões de pessoas podiam ter saído da pobreza extrema e não saíram. É obra.

O problema não vem de hoje. No período compreendido entre 2006 e 2015, os trabalhadores viram os seus rendimentos crescer em média 2% ao ano, enquanto a riqueza bilionária aumentou cerca de 13% ao ano. A crise, bem o sabemos em Portugal, faz sempre sofrer mais os mais fracos. Mas não precisa de ser assim.

Neste momento, 42 pessoas singulares possuem a mesma riqueza que os demais 3,7 biliões de pessoas. 61 têm, para si, o mesmo que os 50% com menores rendimentos. O conjunto dos 1% mais ricos continuam a possuir mais riqueza do que todo o resto da humanidade. Isto não pode ser o resultado de um sistema saudável. Isto é o resultado de um sistema doente.

Quer dizer que não devemos recompensar o mérito? Devemos, claro (embora alguns dos 1% tenham o mérito de ter herdado a sua fortuna, o que sempre seria mais

discutível. Adiante). Mas recompensar o mérito não pode ser feito sem limites, sem regras, sem controlo.

Devemos atender que, para lá de certos limites, essa recompensa deve ser partilhada com a sociedade como um todo. Como? Por exemplo, por via fiscal. O passo mais evidente para começar a corrigir tudo isto, parece-me, seria acabar com os paraísos fiscais. O facto de o trabalho pagar mais impostos que o capital tem de acabar. Senão, vamos perpetuar a situação de pobreza, fome e mortes em nome do direito divino de uns quantos de tirarem mais – muito mais – do que alguma vez deram.

Por muito mérito que um individuo tenha, não há 61 pessoas neste Mundo que têm, por si, mais mérito do que metade de toda a humanidade. É ridículo. É risível. E mata pessoas. Não fazer nada, não dizer nada, não é uma opção. É ser cúmplice.