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Expresso

O colete de forças da CGD

Paulo Macedo é, para lá do político com cujas posições podemos não concordar, e foram muitas as vezes em que não concordei, um gestor muitíssimo capaz e experiente.

Não tendo sido a primeira solução do Governo para a CGD – e não teria sido a minha, mais pelo método do que pelo nome - soube ter a humildade e o sentido de dever de aceitar o encargo de tentar levar o maior banco português para fora das águas agitadas em que se encontrava. Acho que nos provará a todos que há males que vêm por bem e que, num mundo ideal, se calhar sempre devia ter sido a primeira escolha.

Nas suas primeiras tomadas de posição públicas pediu que se deixasse de agitar em público com o futuro da CGD e, no fundo, que o deixassem trabalhar. Tem cumprido a sua parte. Não aparece a despropósito, não procura o mediático, não alimenta polémicas.

Recentemente, a Comissão Europeia publicou finalmente a decisão em que autoriza a recapitalização da CGD – C(2017) 1698 final, processo SA.41178 (2016/NN) – a qual, pese embora omita muita informação ao abrigo do regime de protecção do segredo comercial, traz também muita outra informação, que a todos diz respeito, mais não seja porque somos todos accionistas da CGD.

São 47 páginas sobre o passado recente da CGD, e o muito que não foi feito mas, talvez mais importante, sobre o futuro da CGD.

Confirma-se o que se temia há meses: a recapitalização da CGD negociada em Bruxelas por António Domingues é uma vitória quanto ao essencial (manter a CGD pública) e uma derrota em quase tudo o resto. É com isto que Paulo Macedo terá de viver.

Tivemos de ceder em fazer da CGD um banco mais pequeno. Menos balcões e menos funcionários. Muitos menos. Os números exactos não são divulgados, mas é possível estimar a saída de até 25% da força de trabalho, um número brutal.

Uma CGD que terá de reduzir a sua – e nossa - presença no Mundo (embora a aventura espanhola possa fazer questionar se não é um favor que nos fazem) e abandonar uma série de

áreas de negócios.

Uma CGD obrigada a remunerar por valores astronómicos o envolvimento marginal de investidores privados na recapitalização do Banco, ainda que sem entrada no capital. O preço, aliás, subiu e muito graças ao próprio Banco de Portugal (FT).

Uma CGD que se comprometeu em aumentar comissões e ser menos competitiva na oferta de crédito.

Nada disto é culpa de Paulo Macedo, mas tudo isto recai nas costas de Paulo Macedo.

A CGD que sempre conhecemos deixou de existir. Esperemos que seja possível salvar o seu essencial. A CGD morreu. Viva a CGD.