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Expresso

Banha da cobra? Não, obrigado

A implosão de uma ideia feita que nunca teve base nos factos é sempre uma coisa bonita de se ver.

Não interessa quão bem vestido está o vendedor, banha da cobra é banha da cobra. E o que nos andam a vender há anos (que o aumento do salário mínimo aumenta o desemprego ou, na versão levemente mais polida, que aquele aumento, quando acima do aumento da produtividade) é uma daquelas verdades de laboratório que não funciona no mundo real.

Nada que detenha os especialistas. Se o desemprego sobe quando sobe o Salário Mínimo gritam que ali se encontra a sua prova. Se desce, é porque podia descer mais depressa. Uma espécie de variante doentia da velha falácia do post ergo propter hoc, mas agora o hoc varia conforme dá jeito.

Quando se olha para os dados do desemprego medido pelo número de inscritos nos centros de emprego (uma medida com vantagens e inconvenientes, mas que para este efeito é perfeitamente adequada), verificamos o quê?

Nada. Verificamos zero. Nem uma correlação que sempre pouco provaria. Nem essa existe.


Isto não impede as nossas inteligências residentes, da academia às organizações internacionais, dos patrões aos partidos de direita, de continuarem na sua sede de vender o produto: aumentar o salário mínimo aumenta o desemprego.

E porquê? Bom, os menos cínicos (que os há, e dos outros não cuidaremos hoje) é porque, simples de espírito que são, acham que emprego são batatas e que a lei da oferta e da procura oferece uma solução evidente. Se o trabalho encarece, há menos procura de trabalho, logo, mais desemprego. Genial. Não gostam, contudo, que se lhes pergunte se, ao invés, o salário zero geraria pleno emprego sob a forma de escravatura consentida.

O problema conceptual deste erro é comum a muitos outros (austeridade incluída). O trabalhador não é apenas um factor de custo para as empresas; é também um consumidor. A economia não é só oferta, é também procura. Tentar pensar qualquer realidade a partir de uma posição que implica ignorar metade da dita só pode dar nisto. Asneira atrás de asneira (sim, estou a pensar outra vez na austeridade).

O que custa, mesmo, é que o senhor João ali do café percebe isto. São muitos anos de comércio e pouca paciência para vendedores de banha da cobra, por muitos título, cargos e caros fatos que ostentem. Quando lhe perguntei se o aumento do salário mínimo o preocupava, respondeu logo que não o preocupava nada porque o que tivesse de pagar a mais aos seus trabalhadores também as outras empresas pagariam aos seus e que uma parte disso, muito maior que a que lhe cabia, haveriam os clientes de vir gastar nas suas bicas.

Este mês de Fevereiro deu-lhe razão: “Face a fevereiro de 2016, havia menos 88,37 mil desempregados inscritos, o que representa a maior redução em termos homólogos desde que o IEFP começou a divulgar estes dados, em 1989.”.

A maior redução desde 1989. Depois de finalmente se aumentar o salário mínimo ao fim de anos de congelamento. O sr. João é que percebe disto.