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Expresso

Não sejamos egocêntricos


Quando se fala de divida pública em Portugal, tendemos sempre a pensar que o mundo começa em Badajoz e acaba no cabo da Roca. Este é um erro (aliás são dois, porque os Açores existem).
Ao olhar para a tendência anual de variação das taxas de juro, considerando outros países e não apenas Portugal as limitações dessa perspectiva tornam-se evidentes.


Como resulta do gráfico infra, as taxas de juro da dívida portuguesa variaram num padrão não muito diferente da dos demais países do Sul, embora se note uma amplitude diferente entre estes e os países mais centrais para a moeda única, nomeadamente, França e Alemanha. Não se pretende tirar daqui qualquer conclusão, apenas alertar para a necessidade de evitar análises simplistas ou precipitadas.


Basta ver que também a dívida Norte Americana apresenta valores medianos em relação aos estados europeus mencionados, o que pelo menos recomendaria um pouco menos de arrogância de que sabemos que o problema tem uma solução exclusivamente nacional ou sequer Europeia.

Portugal (amarelo) Alemanha (azul), França (encarnado), Espanha (verde escuro), Itália (verde claro), US (roxo). O gráfico pode ser replicado em bloomberg.com (sem link directo).

Portugal (amarelo) Alemanha (azul), França (encarnado), Espanha (verde escuro), Itália (verde claro), US (roxo). O gráfico pode ser replicado em bloomberg.com (sem link directo).

Por outro lado, a evolução não tem sido igual ao longo das curvas de maturidade.

Importa, portanto, separar os efeitos de curto prazo, decorrentes de medidas de curto prazo, dos demais, tendo sempre em conta que os investidores tendem a atribuir um prémio de risco em diferentes prazos consoante identifiquem um problema de equilíbrio das contas públicas ou um problema de crescimento sustentável da economia, por exemplo.


Como resulta do gráfico abaixo, o diferencial dos YELD da dívida portuguesa subiu em todos os prazos, mas de forma muito mais acentuada no longo prazo, do que no curto prazo. Talvez valha a pena perder uns minutos a pensar o que tal possa significar.

Gráfico obtido a partir de Investing.com: https://www.investing.com/rates-bonds/portugal-government-bonds?maturity_from=180&maturity_to=180)

Gráfico obtido a partir de Investing.com: https://www.investing.com/rates-bonds/portugal-government-bonds?maturity_from=180&maturity_to=180)

Por fim há que apelar ao rigor, e isenção na análise da variação das taxas de juros da dívida pública.

Ao invés de se procurar culpar acrítica e precipitadamente uma qualquer medida do governo português pela recente subida das taxas de juro acima de 4%, melhor seria ter em conta que em Dezembro o Banco Central Europeu comprou menos 40% de dívida portuguesa do que as regras do QE permitiriam, e a razão para essa decisão não é seguramente as férias de Natal, como houve quem chegasse a avançar (a sério), mas antes uma preocupação com não exceder outros limites de detenção de dívida que prejudicam Portugal ou a Irlanda, mas não atingem países como a Alemanha ou a França.

Ao pervertermos a nossa análise focamo-nos no que por vezes importa pouco, enquanto nos passa ao lado o que realmente pode ser decisivo.

Muito mais haverá a dizer sobre a evolução dos juros da dívida pública portuguesa, mas para que isso possa acontecer, o debate não pode ser contaminado pela instrumentalização deste indicador no combate político de curto prazo, servindo como verdadeira arma de arremesso entre duas trincheiras.

PS – O país perdeu por estes dias Mário Soares. Sem Soares, teríamos menos liberdade, menos dignidade humana e menos justiça social. Fazer o combate que aí vem – e vem, não se duvide – seria mais fácil com Soares. Sem ele, sobramos nós. É tempo de ir à luta. E essa luta não é só do Partido Socialista. Nem sequer é só dos partidos. É de todos quantos se revêm naqueles valores.