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Expresso

2017 promete

Esperar pelo melhor é prepararse para o perder: eis a regra.
O pessimismo é bem grande, é fonte de energia.

Fernando Pessoa


2017 promete, repito. Não sabemos bem o quê, mas se alguma coisa 2016 nos ensinou, é que mais vale esperar o pior. Balanços deste ano não faltarão, e é talvez mais oportuno olhar para a frente. Caucionando, desde já, que o optimismo está, claramente, fora de moda.

Do ponto de vista de Portugal o cenário interno é apenas moderamente optimista, e muito vulnerável ao que se possa passar à nossa volta.

E se do outro lado do Atlântico sabemos que não virão bons sinais, com uma agenda, na melhor das hipóteses, protecionista e disruptora e, quase certamente, também populista e fomentadora de outros populismos, deste lado do “lago” também há uns, digamos, pormenores, que nos devem merecer atenção.

Depois de um 2016 em que o único sinal de esperança quanto à eminência de uma espiral populista veio das eleições austríacas, que destoaram de um ano em que o Brexit conseguiu não ser o pior sinal da degeneração do projecto europeu numa realidade que envergonharia os seus fundadores.

Esse triste titulo deve ser entregue à transformação, pela mais profunda inépcia política e degradação moral, de mais de cem vítimas de atentados em solo europeu no álibi para a condenação de milhares de refugiados à morte.

Aos restantes mais de 3 milhões de refugiados a Europa oferece uma espécie de campo de concentração offshore, gerido por uma Turquia cada vez menos democrática e onde os direitos humanos são letra morta, o que a Europa não só tolera como decidiu financiar generosamente, com o beneplácito do Parlamento Europeu.

Parece difícil de bater, mas com eleições na Holanda, França e Alemanha, todas susceptíveis de degenerarem numa luta entre a direita e a extrema-direita, o perigo de instabilidade em Itália, com problemas graves no sistema financeiro, eventuais eleições ou mesmo um referendo sobre a saída do Euro, e a (perene) crise Grega, 2017 pode sempre ser uma surpresa. No meio de tudo isto, Portugal tem tudo a perder e pouco a ajudar. Somos 10 milhões numa Europa de 500 milhões.

Por culpa própria, na Europa enfrentamos este momento ponderoso ainda sem termos digerido e aplacado os efeitos de uma crise financeira e económica que começou há longos 8 anos.

Pode soar pouco animador, talvez porque seja apenas realista.

Podemos ter sorte, podemos evitar o pior de tudo isto. Mas era preciso, para além de sorte, uma vontade política clara e precisa, políticos e políticas à altura dos desafios, humanismo e humanidade nas decisões, visão e clareza nos propósitos. Nada disso tem abundado.

Veremos. Afinal, a Europa já passou por pior e o Mundo já esteve mais feio. Só nunca neste tempo que é o nosso.