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Expresso

Somos todos Dory, o peixinho com amnésia anterógrada?

Talvez seja melhor começar com este exemplo: há pouco mais de um mês o maior partido da oposição produziu uma acusação gravíssima. O Governo estava a falsificar a execução orçamental. A imprensa deu eco a essas acusações, que entraram pela casa de todos nós.

Um dos pontos da alegada falsificação? O Governo estaria a esconder despesa deixando fora de controlo os pagamentos em atraso. Dados da execução orçamental de Setembro, publicados há dias pela DGO mostram que não há descontrolo nenhum nos pagamentos em atraso. Estão um pouco acima do ano anterior, mas já não estão a aumentar, e é mesmo possível identificar uma discreta correção em baixa. Basta ver:

Mas ninguém sublinhou este desenvolvimento. Aquelas acusações gravíssimas têm pouco mais de um mês, mas já ninguém se lembra. A imprensa, que deu eco à acusação, esqueceu o seu dever de informar. E pronto, é como se nada se tivesse passado.

Outro exemplo? Os nossos jornalistas acabam de descobrir que é possível orçamentar para o ano que vem menos despesa que a executada no ano anterior. Li, à vontade, meia dúzia de notícias dando conta, com choque, que é isso que sucede com o Ministério da Educação.

Enquanto escrevo estas linhas o Ministro da Educação está a perder o seu tempo na TV a explicar o óbvio. Daqui a um mês, já ninguém se lembrará.

A generalidade dos comentadores e jornalistas (mesmo os ditos especializados) incorrem em dois tipos principais de disparates metodológicos:

a) comparar previsões orçamentais com dados de execução orçamental;

b) usar os números da classificação orgânica (Ministério), da classificação por programas (Programa 11) e da classificação funcional (Educação) sem perceber a que respeitam (não, não são a mesma coisa);

Mas deixemos tudo isso de lado, por agora. E percebamos isto: o fenómeno não é fenómeno nenhum. Usando como referencial o Mapa III quer do Orçamento de Estado quer da Conta Geral do Estado (disponíveis na página da DGO) vemos que aconteceu exactamente o mesmo em todos os anos desde 2011. Todos.

Como explicar então que se aborde este assunto como se fosse uma novidade chocante? A resposta está ali, no título. Somos a Dory. Não temos capacidade de retenção de factos. E depois queixamo-nos da falta de qualidade do debate público.

Não se preocupem. Amanhã outra polémica surgirá, com ou sem razão. E daqui a um mês já não é nada. Outra vez.