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Expresso

O indispensável plano B

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Se o governo e os partidos que o apoiam não tiverem um plano B em caso de choque externo, a direita aplicará o seu plano A

Pode-se ficar mais ou menos nervoso perante os cada vez mais frequentes soluços do mercado accionista chinês e aquilo que lhes está subjacente. Pode-se acreditar mais ou menos no Royal Bank of Scotland, que afirmou recentemente antecipar um 2016 “cataclísmico” e aconselhou os seus clientes a venderem tudo e refugiarem-se nas obrigações, em antecipação do crash que prevê avizinhar-se. Pode-se inclusivamente recordar a velha piada sobre como os economistas previram com sucesso 10 das duas últimas crises. Mas parece-me relativamente fácil de concordar que a crise aguda de 2007-2008 foi o resultado da súbita deflação de uma bolha de endividamento; que desde essa altura o endividamento global, longe de se ter reduzido, continuou a aumentar – especialmente nas chamadas economias emergentes, com destaque para a China; e que, alimentados pela criação de dívida, inúmeros mercados financeiros têm nos últimos anos vindo a desenvolver exuberantes bolhas especulativas, de que aliás venho aqui falando praticamente desde que comecei a escrever esta coluna há quase dois anos. Por estes motivos, não me parece especialmente especulativo concluir que o próximo colapso generalizado dos preços dos activos financeiros, e subsequentes restrição do crédito e contracção globais, não são uma questão de “se”, mas de “quando”.

Recordamo-nos do que aconteceu da última vez que isso sucedeu. Portugal era um país fortemente endividado face ao exterior, ainda que a maior parte dessa dívida fosse privada e não pública. A recessão global e o súbito congelamento dos fluxos de crédito a partir do exterior constituíram um fortíssimo choque de procura para a economia nacional. A desaceleração súbita da actividade económica provocou a quebra das receitas fiscais e o aumento automático dos gastos com apoios sociais. Em 2009, o ano em que a crise chegou verdadeiramente à Europa, Portugal registou um défice público de mais de 10% do PIB, mas já poucos recordam que esse valor resultou principalmente destes mecanismos automáticos, mais do que de qualquer medida política activa. E quando à súbita degradação das contas públicas se juntaram os ataques especulativos contra a capacidade do estado se endividar (os quais, na ausência de um banco central que actuasse como prestamista de último recurso, se tornaram uma profecia auto-cumprida), a vulnerabilidade externa de longa data da economia portuguesa emergiu como crise aguda de dívida pública. Seguiram-se os PECs, o memorando com a troika e a subida ao poder de um governo que aproveitou a oportunidade para pôr em prática o mais sistemático ataque aos direitos e rendimentos de trabalhadores e pensionistas a que o nosso país havia assistido.

Quatro anos depois, graças ao voto dos portugueses e à responsabilidade dos eleitos, foi possível assegurar uma mudança de governo e uma inversão do rumo das políticas. O novo governo está a reverter sistematicamente o caminho de regressão da legislatura anterior, para exasperação de muitos comentadores, mas ao fazê-lo está apenas a implementar aquele que é o programa do PS com as alterações negociadas à esquerda. Até por isso – pela legitimidade que advém de estar a cumprir o que prometeu, ao contrário do que fez o governo anterior –, está de parabéns. Mas aquilo que escrevi nos dois primeiros parágrafos deste texto deve fazer reflectir todos quantos queiram assegurar a perenidade das reconquistas que estão agora a ser alcançadas. Conhecendo nós a dependência da economia portuguesa, e do Estado em particular, face ao financiamento externo, sabendo nós o risco de um credit crunch nos próximos meses ou anos que faça disparar o custo do financiamento em Portugal, e recordando como os sectores mais conservadores da sociedade portuguesa manobraram com mestria aquando do último episódio deste género, é da mais elementar prudência que este governo e os partidos que o apoiam preparem antecipadamente um plano B – também económico, mas sobretudo político – para lidar com este cenário quando ele se colocar.

Não se trata de deixar de fazer o que está a ser bem feito, como gostaria a direita. Trata-se de preparar antecipadamente como conduzir politicamente um tal choque externo, para que não seja a direita a conduzi-lo.