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Expresso

A crise, laboratório da macroeconomia

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A evolução da economia mundial nos últimos anos sugere algumas pistas relevantes para o aperfeiçoamento da teoria macroeconómica

As notícias recentes acerca da persistente incapacidade do BCE em aumentar a taxa de inflação na zona Euro, volvido que é um ano sobre o início do quantitative easing na sua versão europeia, são seguramente uma má notícia do ponto de vista do que é necessário para reduzir a montanha de endividamento público e privado que pesa sobre a economia europeia.

Do ponto de vista da teoria económica, porém, a ausência de qualquer tipo de efeito inflacionário relevante mesmo em face da adoção de uma política monetária largamente expansiva constitui uma “experiência natural” que devemos aproveitar para retirar algumas ilações, especialmente quando temos em conta que a adoção de estratégias de política monetária igualmente expansivas nos últimos anos tanto nos EUA como no Japão produziram, deste ponto de vista, idênticos resultados: ausência de inflação significativa.

A ausência de resposta inflacionária nos últimos anos a despeito da mobilização em grande escala de instrumentos de política monetária tanto tradicionais como não-convencionais poderá parecer, em retrospectiva, não ter nada de especial. Porém, estava longe de ser evidente para todos a priori que seria esse o resultado que viria a ser produzido. Pelo contrário, foram muitos os economistas de inclinação neoclássica ou austríaca que alertaram contra o que previam vir a ser o efeito inevitavelmente inflacionário, e para eles pernicioso, da resposta monetária expansiva à crise iniciada em 2007. No caso dos EUA, que inauguraram o recurso ao quantitative easing, podemos por exemplo recordar uma carta aberta dirigida a Ben Bernanke em Outubro de 2010, assinada entre outros por Niall Ferguson, alertando contra o risco de inflação e de depreciação ou “aviltamento” (“debasement”) da moeda.

Esses receios eram – e são – inteiramente lógicos do ponto de vista do corpus teórico neoclássico, no contexto do qual a tendência dos mercados para o pleno emprego, considerada natural e intrínseca, implica que o estímulo à procura por parte dos decisores públicos (seja por via fiscal/orçamental ou monetária) não pode produzir mais do que um efeito sobre os preços. A maior parte dos estudantes dos primeiros anos de licenciatura em Economia está aliás bem familiarizado com a diferença entre as curvas de oferta agregada neoclássica e keynesiana, representadas em baixo, respetivamente, nas figuras da esquerda e da direita.

No quadro teórico neoclássico, à esquerda, o estímulo à procura agregada, através por exemplo de uma expansão monetária, dissipa-se inteiramente no nível de preços, não produzindo qualquer efeito sobre o nível do PIB real (A à B). Já no quadro teórico keynesiano, o efeito da expansão da procura distribuir-se-á entre inflação e estímulo à produção consoante a economia esteja mais próxima ou mais distante do pleno emprego: num contexto de recessão, longe do pleno emprego, não há efeito inflacionário – apenas estímulo à produção, limitando a magnitude da depressão (A’ à B’).

Do ponto de vista do debate teórico em matéria de macreconomia, os desenvolvimentos dos últimos anos nos EUA, Japão e Europa constituem assim uma experiência cujos resultados apoiam o entendimento keynesiano da economia e refutam os postulados neoclássicos. Porém, as ilações que podemos retirar das respostas monetárias à crise estrutural dos últimos anos e dos resultados por estas produzidos não se ficam por aqui, sendo na verdade mais interessantes e subtis. É que se é verdade que a previsão neoclássica de um efeito inevitavelmente inflacionário de políticas monetárias expansivas claramente não se verificou, é igualmente verdade que os efeitos produzidos por estas políticas acabaram por surpreender quase todos.

Verificou-se, em particular, que os enormes aumentos da base monetária a que procederam os bancos centrais americano, japonês e europeu produziram efeitos bastante mais modestos na massa monetária – algo apenas previsível à luz de quadros teóricos relativamente marginais como é o caso dos pós-keynesianos, para quem a oferta de moeda é fundamentalmente endógena. Por outro lado, tem-se verificado também, a par de uma tendência persistentemente deflacionária no mercado de produto, uma tendência constante para a formação de bolhas especulativas nos mercados secundários de ativos (habitações, títulos financeiros, mercadorias,...), para onde a vasta maioria da moeda criada tem tendido a dirigir-se – algo que a generalidade dos principais quadros teóricos tem enorme dificuldade em explicar adequadamente.

As duas crises estruturais anteriores que assolaram a economia mundial provocaram alterações importantes no entendimento teórico dominante da macroeconomia: a Grande Depressão dos anos ’30 foi decisiva para a ascensão do keynesianismo em resultado da consciencialização da possibilidade de existência de situações de desemprego generalizado e depressão profunda em economias de mercado; ao passo que o caráter estagflacionário da crise dos anos ’70 foi decisiva para a contrarrevolução neoclássica na macroeconomia. A crise iniciada em 2007 é, como a crise dos anos ’30, novamente uma crise “keynesiana”, de insuficiência de procura. Mas é também uma crise em que a tendência deflacionária no mercado de produto coexiste com a exuberância especulativa nos mercados financeiros. Resta ver se de que forma e até que ponto a teoria económica evoluirá para dar conta deste fenómeno.