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Expresso

Campeões da desigualdade

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Mais uma vez, Portugal destaca-se como especialmente desigual entre os países avançados. Está na altura de se reconhecer a gravidade deste problema

A Morgan Stanley publicou há algumas semanas um relatório sobre a desigualdade nas economias avançadas no qual procurou identificar as tendências dominantes deste fenómeno e discutir as suas implicações principais. Provindo de uma das maiores empresas mundiais de serviços financeiros, a perspetiva é representativa da visão das elites – mas ainda assim suficientemente esclarecida para alertar em relação a algumas das consequências perniciosas da desigualdade, através de canais como a instabilidade política ou o impacto negativo sobre a procura e a produtividade.

Em Portugal, a publicação deste relatório recebeu alguma (ainda que não muita) atenção principalmente devido a caber ao nosso país a duvidosa honra de ocupar o primeiro lugar do ranking do indicador multidimensional de desigualdade desenvolvido e calculado pelos autores deste relatório. A ideia deste indicador (“Morgan Stanley Inequality Indicator” ou “MSII”) é análoga à de muitos outros indicadores compósitos, de que o exemplo mais famoso é provavelmente o índice de Desenvolvimento Humano do PNUD: trata-se de capturar dimensões diversas de um determinado fenómeno, representando-as de forma condensada como um único valor numérico. No caso deste MSII, o indicador compósito condensa a informação relativa a doze indicadores ou dimensões de desigualdade, incluindo o mais clássico e consagrado coeficiente de Gini mas também indicadores relativos à participação no mercado de trabalho, desigualdade salarial, condições de saúde e acesso a tecnologias digitais.

Entre os 20 países considerados – 16 países europeus, Austrália, Canadá, EUA e Japão –, Portugal surge no primeiro lugar deste ranking como o mais desigual dos países avançados, seguido por Itália, Grécia, Espanha e Estados Unidos. O resultado não deixa de poder ser considerado surpreendente por quem acompanhe este tipo de comparações internacionais, uma vez que, entre os países da OCDE, Portugal costuma, apesar de tudo, ser ultrapassado na desigualdade pelos EUA e Reino Unido. Tal deve-se às dimensões adicionais tidas em conta na elaboração deste MSII: considerando apenas o mais habitual coeficiente de Gini, qualquer um desses dois países continua a surgir como mais desigual do que Portugal.

Em todo o caso, a discussão sobre qual o “verdadeiro” lugar de Portugal no ranking da desigualdade ou sobre qual o indicador mais adequado para representar este fenómeno é, em grande medida, académica. No que às implicações políticas diz respeito, basta que Portugal se encontre claramente entre as economias avançadas mais desiguais – no que todos os indicadores e análises concordam -, com todas as consequências reconhecidamente nefastas que daí advêm em domínios como a confiança interpessoal, a criminalidade ou a morbilidade.

Tudo isto torna especialmente grave que as tendências dos últimos anos – a partir da eclosão da crise financeira internacional e, especialmente, durante a última legislatura – tenham sido de agravamento de todas estas tendências, após uma evolução francamente positiva durante a maior parte da primeira década do milénio. Está na altura de se reconhecer a gravidade deste problema em Portugal e de agir em conformidade para preveni-lo e mitigá-lo.