Siga-nos

Perfil

Expresso

Partidas simultâneas

  • 333

A esquerda tem pela frente tempos de grande exigência, que terá de enfrentar com inteligência e responsabilidade

Se, como parece provável, António Costa for em breve indigitado para formar governo com apoio parlamentar do PS, BE e CDU, os tempos que se seguirão serão de enorme exigência para a esquerda portuguesa. Não somente devido à urgência de reconstruir uma sociedade assente na justiça social e na decência, nem apenas em virtude dos constrangimentos que se colocarão à governação – mas também devido à necessidade de prosseguir simultaneamente objectivos políticos com tensões entre si. Esta exigência será enorme para toda a esquerda, mas sê-lo-á ainda mais para a esquerda à esquerda do PS, que não poderá deixar de prosseguir pelo menos três objectivos fundamentais.

O primeiro objectivo consiste em concretizar uma alteração profunda de política dentro dos constrangimentos do euro, da dívida existente e das regras orçamentais europeias tal como têm sido aplicadas, dando-se como assente que um programa de governo apoiado pela esquerda ampla não promoverá rupturas com estes constrangimentos. Escrevi sobre isto na semana passada, tendo então referido uma parte do muito que pode ser feito dentro destes parâmetros – ao nível da mais justa distribuição dos apoios e sacrifícios associados ao orçamento de estado, ao nível das alterações estruturais sem impacto orçamental directo (nomeadamente na regulação das relações laborais) e mesmo, por vias indirectas, ao nível dos impactos macroeconómicos diferenciados de diferentes formas de atingir a mesma meta orçamental. Mas não deixa de ser um objectivo muito exigente - e tanto mais quanto possa ocorrer uma deterioração das condições externas.

O segundo objectivo consiste em demonstrar a viabilidade política de um governo apoiado por uma maioria parlamentar que englobe o PS e os partidos à sua esquerda. Esta solução governativa constitui uma ameaça tanto maior para a direita e para as elites que esta representa quanto a geometria que consubstancia venha a consolidar-se no futuro. É por isso que a direita aposta tudo em que corra mal, através da dissidência de uma ou mais das bases de apoio desta solução política. E fará tudo – na comunicação social, na presidência da república e onde mais puder exercer pressão – para corroer a solidez desta aliança, deturpando palavras e intenções e promovendo a dissidência. É exactamente por esse motivo que a solidez desta aliança é crucial, e que a lealdade de todas as partes é fundamental.

O teste último do sucesso desta aliança, enquanto elemento de contestação duradoura ao domínio da direita, consistirá na capacidade de evitar rupturas traumáticas. Se a aliança se desfizer em resultado de tacticismos de curto prazo ou num ambiente de recriminação mútua – em suma, se as condições da separação constituírem um argumento favorável àqueles que, no seio destes três partidos, se opõem a este mesmo entendimento -, então a direita terá ganho. É por isso que é tão importante, no momento actual, alcançar um acordo político que encoraje a cooperação, dissuada a dissidência e, se absolutamente necessário, permita uma separação harmoniosa – e que o faça para um conjunto amplo de condições políticas e económicas.

Quanto ao terceiro objectivo, que dos três é o único que não é comum ao PS, decorre da consciência, à esquerda do PS, de que o euro, a dívida e as regras orçamentais europeias são impedimentos fundamentais ao desenvolvimento económico e à autonomia política nacionais. Contribuir para abolir esses constrangimentos é, por isso, um objectivo político de que a esquerda não pode demitir-se. Mas trata-se de um processo gradual, de consciencialização e mobilização de uma maioria social, que não deve sobrepor-se aos outros dois objectivos. Tenho alguma legitimidade para dizê-lo, visto que me conto há alguns anos entre os que têm procurado contribuir activamente para esse processo, inclusive quando essa posição era muito minoritária.

Nenhum destes objectivos é secundário ou dispensável para a esquerda, mas é evidente que existem algumas tensões entre eles. Daí a enorme exigência dos tempos que correm. Porém, é possível responder à altura, com base na compreensão das prioridades em cada momento e das diferentes temporalidades de cada um dos objectivos.

No curto prazo, é indispensável melhorar as condições de vida das pessoas e marcar a diferença face à governação da direita. No médio prazo, nada é tão importante quanto demonstrar a viabilidade e solidez políticas de um governo assente na esquerda ampla, construindo a confiança e resistindo às tentativas de desestabilização. O resto, podemos estar certos, virá a seu tempo.