Siga-nos

Perfil

Expresso

As forças em disputa

  • 333

O atual impasse político reflete um renovado equilíbrio entre as forças sociais em disputa

A crónica de Ricardo Costa de há três dias atrás, sobre a importância da força na política, tocou no ponto fundamental para a leitura das dinâmicas políticas em curso por estas semanas. Efetivamente, a política não é outra coisa senão o confronto à escala da sociedade entre posições divergentes, que especialmente em matéria económica traduzem posições sociais, de classe, que são também elas divergentes - na verdade, em geral antagónicas.

A importância fundamental que a força assume na política resulta diretamente do caráter intrinsecamente conflitual desta última. É da maior ou menor força de cada campo em disputa, quando em confronto com a força dos interesses que lhe são antagónicos, que depende a sua capacidade de produzir desenlaces consentâneos com os seus interesses.

Mas, e é aqui que me afasto da análise de Ricardo Costa, os planos relevantes em que esta força se manifesta são muito mais diversos do que a mera força individual dos líderes partidários, para mais no mero sentido do seu maior ou menor carisma ou da maior ou menor unanimidade de que gozam momentaneamente no seio do seu partido ou família políticas.

Constitui força política, como muito bem sabem quer a esquerda quer a direita, a capacidade organizativa do movimento sindical – sendo isso que explica o facto da organização sindical ser tradicionalmente um alvo prioritário da estratégia política neoliberal. Constitui força política a capacidade de produção e disseminação discursivas, nomeadamente através da maior ou menor influência sobre a comunicação social. Constitui força política a capacidade de influenciar a produção legislativa e, em resultado desta, o ordenamento jurídico sedimentado ao longo do tempo que estabelece os parâmetros da atividade política constitucional. E constitui força política a capacidade de representação não só nos diversos órgãos de soberania como nos próprios partidos políticos, que são eles próprios instituições que medeiam de forma contingente e imperfeita as forças sociais subjacentes.

Aquilo a que estamos a assistir neste momento é efetivamente explicado por uma questão de força, mas a meu ver isso sucede bastante menos por questões que tenham a ver com o carisma, determinação ou capacidade de unificar as hostes por parte dos líderes individuais do que pelo impasse e contradição entre as diferentes forças, em diferentes planos, de campos antagónicos. E, por isso mesmo, parece-me que a chave para a interpretação das dinâmicas políticas atuais é precisamente a alteração da relação de forças que ocorreu em resultado das últimas eleições legislativas, especialmente na sequência da assunção pela direção do PS de uma estratégia de aproximação à esquerda e de clara rejeição dos cantos de sereia que a direita lhe tem repetidamente dirigido – da tentativa concertada de traçar a fronteira nas questões do Euro, da Nato e da União Europeia logo a partir da noite das eleições, passando pelas proclamações de que é chegado “o tempo dos consensos”, até, mais recentemente, à rasteira oferta de lugares no executivo.

O impasse político atual não resulta, assim, da falta de força dos líderes políticos individualmente considerados, mas do recente e acrescido equilíbrio entre as forças em disputa. A partir do momento em que a direção do PS, com uma coragem e responsabilidade políticas que não só me surpreenderam como até desmentiram, assumiu como fundamental a necessidade de inversão de políticas, retirando daí como consequência a maior disponibilidade para negociações e entendimentos à sua esquerda, a relação de forças no campo da representação parlamentar alterou-se em favor, precisamente, da esquerda. Especialmente quando o Bloco de Esquerda e a CDU, com idêntica coragem e sentido de responsabilidade, anunciaram a sua disponibilidade para viabilizar um governo do PS, negociando a partir do programa deste último e mostrando-se inteiramente disponíveis para viabilizar uma governação que assegure ganhos em matéria distributiva e de justiça social, mesmo que dentro de constrangimentos institucionais e macroeconómicos já diagnosticados como impeditivos da real viabilidade da economia e sociedade portuguesas no longo prazo. Demonstraram com isso grande sagacidade política: escolhe-se as batalhas conforme o momento, as forças, os aliados e a situação do adversário, não se deixa que seja este último a escolhê-las.

E é desta nova configuração da relação de forças que resultam as reações, já apropriadamente apelidadas de apopléticas, da direita, bem patentes no registo e teor da argumentação não só de muitos comentadores deste campo como dos seus próprios líderes partidários. A exasperação de Assunção Cristas na entrevista que deu à TVI no último Sábado é apenas uma manifestação entre muitas – ainda que especialmente sintomática, é certo – do medo a começar a mudar de lado.

Ainda assim, é óbvio que o campo conservador continua a contar com forças importantes e que não devem ser subestimadas. A maior delas todas, especialmente à luz do enquadramento constitucional, é o controlo da Presidência da República: obrigado, contra sua vontade, a optar entre a manutenção da ilusão da gravitas supra-partidária e a fidelidade ao seu campo político, estou certo que Cavaco Silva não deixará de dar prioridade a este último, indigitando Passos Coelho como primeiro-ministro mesmo que em aberta contradição com a sustentação parlamentar estável que tantas vezes afirmou como indispensável para qualquer governo. Outra força importante da direita é a pressão internacional, especialmente a exercida pelas instituições europeias. E outra ainda é a quinta coluna, capitaneada por Francisco Assis, com que conta dentro do PS – apesar de me parecer que a grande maioria deste partido não só não se revê nessa posição como compreende que a sua aproximação à direita implicaria um forte risco de redução à irrelevância.

Estamos, em suma, num impasse que reflete um renovado equilíbrio político. Numa situação como esta, tenta-se todas as estratégias e apela-se a todos os argumentos (sondagens à opinião pública, apelos à “tradição política portuguesa”, à “verdadeira intenção dos eleitores”, ao “interesse nacional”, à “honestidade intelectual e política” dos líderes,...) para tentar ganhar vantagem. Visto do momento presente, porém, parece-me que estas estratégias discursivas terão um impacto relativamente limitado.

O desenlace a curto-médio prazo jogar-se-á provavelmente dentro do PS, caso a ala direita consiga impor-se; ao nível da capacidade da esquerda em produzir uma alternativa de governo que se consiga impor como inescapável a Cavaco Silva, caso o programa de governo da direita venha efetivamente a ser inviabilizado; ou, falhando tudo isto, em eleições antecipadas.