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Expresso

Tremores financeiros

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A forte desvalorização da maioria das acções e índices bolsistas de todo o mundo registado no início desta semana, que nalguns casos apenas encontra paralelo em 2008, começou já a suscitar algum debate acerca do risco de um novo episódio agudo de instabilidade financeira global semelhante ao que se viveu em 2008-2009.

Como causas próximas deste colapso bolsista com epicentro no mercado bolsista chinês têm sido referidas especialmente as dúvidas dos investidores em relação à solidez da dinâmica de crescimento da economia chinesa e a decisão das autoridades deste país, há cerca de duas semanas, no sentido da desvalorização da sua moeda.

Como facilmente se compreenderá, no entanto, o colapso bolsista chinês deve-se em última instância ao facto de não ser possível sustentar eternamente um desfasamento entre o ritmo de crescimento do valor das acções e o ritmo de crescimento da economia. No caso chinês, esse desfasamento é evidente. Só nos últimos doze meses, os mercados bolsistas chineses registaram uma valorização de cerca de 150%, o que obviamente eclipsa mesmo a mais elevada taxa de crescimento económico.

Um tão substancial desfasamento não pode ser eternamente sustentado porque, em última instância, o rendimento proporcionado pelas acções está ancorado ao desempenho das empresas. Este desempenho pode divergir até certo ponto do desempenho da economia como um todo, visto que as empresas cotadas são uma amostra não necessariamente representativa e visto que o rendimento empresarial depende também da evolução da questão distributiva entre trabalho e capital. Mas quando estamos em presença de valorizações bolsistas na ordem de 150%, podemos estar seguros que estamos em presença de uma bolha especulativa.

No caso da China, a formação desta bolha especulativa é explicado por algo a que já tive ocasião de me referir nesta coluna há alguns meses: o gigantesco aumento do endividamento público e privado nos últimos anos, em resultado da opção das autoridades chinesas no sentido da liberalização financeira e da expansão monetária em grande escala. Os valores são colossais: só entre 2007 e 2015, o endividamento total (público e privado) da economia chinesa passou de perto de 160% do PIB para cerca de 280%.

Todo o endividamento acresce à procura, só que apenas uma parte é canalizado para a economia real – o resto é encaminhado para a esfera financeira, alimentando a formação de bolhas em diferentes mercados de activos. E essas bolhas, mais cedo ou mais tarde, rebentam. A questão que se coloca agora é até que ponto é que este colapso – ou reajustamento – bolsista centrado na China pode alastrar de forma mais intensa e generalizada e desencadear uma nova crise financeira de grandes dimensões.

Não é uma questão a que seja fácil dar resposta, uma vez que não é fácil prever em que circunstâncias é que o rebentamento da uma bolha especulativa num ou mais mercados particulares dá origem a uma dinâmica generalizada de deflação da dívida, na qual a perda do valor dos activos desequilibra os balanços e origina insolvências, alimentando por sua vez a retracção da procura. Prevê-lo exigiria um conhecimento detalhado da teia de interdependências entre os diversos mercados e operadores de grandes dimensões de que não dispomos.

O que sabemos, em contrapartida, é que a economia mundial se encontra ainda mais endividada do que em 2008, tendo o gigantesco endividamento adicional dos últimos sido maioritariamente dirigido para diferentes tipos de activos e mercados financeiros. E isso sugere que a próxima crise financeira global não é que questão de “se”, mas de “quando”.