Siga-nos

Perfil

Expresso

Aprender com a derrota

  • 333

Pior ainda do que sofrer uma derrota é sofrê-la e não aprender nada com isso

O acordo alcançado no passado fim-de-semana foi, simplesmente, catastrófico. Do ponto de vista económico, significa o aprofundamento da tragédia em que a Grécia se encontra há cinco anos. O acordo alcançado prevê mais três anos de austeridade sem tréguas, com tudo o que isso implica em termos de perspectivas de evolução social e de viabilidade do projecto de desenvolvimento de Grécia. A economia e a sociedade gregas continuarão a sua espiral descendente. A dívida pública grega continuará a sua espiral ascendente por via tanto do numerador (os 86 mil milhões de euros de “ajuda” adicional) como do denominador (a continuação da contracção da economia em resultado da austeridade). O acordo não prevê outra coisa senão mais austeridade como contrapartida para aceder a mais endividamento, e isso é tanto mais dramático quanto este acordo foi alcançado por um governo que mostrara compreender que tanto a primeira como o segundo não constituem parte da solução, mas do problema.

O acordo, e o processo que a ele conduziu, são também catastróficos do ponto de vista da soberania - ou antes, são esclarecedores relativamente aos limites da soberania democrática no contexto da união económica e monetária. Entre a apertada supervisão das finanças públicas gregas por parte das instituições credoras e a constituição de um fundo, destinado à privatização, constituído pelos mais valiosos activos detidos pelo estado grego, o acordo representa a completa transformação da Grécia numa colónia dos credores, administrada pelos credores, no interesse dos credores. Deixa abundantemente claro que não existe verdadeira soberania democrática no interior da zona euro, da mesma forma que não existe qualquer tipo de democracia multilateral – apenas o poder da Alemanha – nas suas esferas de tomada de decisão.

Mas o pior deste acordo é mesmo a sua dimensão política. O governo grego acedeu a ultrapassar todas as linhas vermelhas que tinha estabelecido e a quebrar a vasta maioria dos compromissos que havia estabelecido no programa de Salónica. Fê-lo apesar do enorme apoio popular com que contava em virtude dos resultados das eleições legislativas e do referendo de 5 de Julho, do qual havia saído um claríssimo e muito corajoso mandato popular no sentido do governo garantir um acordo digno e favorável aos gregos ou, na ausência de um tal acordo, rejeitar qualquer outro acordo assumindo as consequências. O governo grego, devo dizê-lo com clareza, foi menos corajoso do que o seu povo e desrespeitou a sua vontade. E o mais trágico é que a única coisa que consegue com isso é desperdiçar uma oportunidade única, com graves repercussões não só para os gregos como para o resto da Europa.

Este desenlace é, para já, uma clamorosa derrota. Mas é-o apenas para já, pois é evidente que não produz um desenlace estável. Na medida em que implica a continuação da subjugação e do empobrecimento, é inevitável que este rumo volte a ser posto em causa mais cedo ou mais tarde. Está já a sê-lo por uma boa parte dos trabalhadores, cidadãos e deputados gregos, podendo redundar em novo volte-face a breve trecho caso estes tenham força para obrigar o governo a alterar a sua posição. Mas mesmo que não seja para já, será para mais tarde: como tive ocasião de escrever há poucas semanas, não há medo do desconhecido nem europeísmo indefectível que sustentem a subjugação eterna. Este acordo seria profundamente nocivo e intrinsecamente instável se tivesse sido assinado por um governo do PASOK ou da Nova Democracia; tendo sido assinado por um governo do Syriza, é igualmente nocivo e instável. O facto de ter sido assinado pelo governo do Syriza apenas acrescenta a dimensão trágica de ter sido desbaratada uma enorme esperança.

Na ressaca deste acordo, e enquanto aguardamos as próximas voltas da roda da história, importa não desperdiçar o aspecto mais positivo de todo este processo: as lições que dele podemos e devemos retirar. É hoje claro para todos, mesmo para quem não o era há alguns meses, que as decisões políticas na Europa não são governadas pela razão ou pela solidariedade, mas pela prossecução pelos mais poderosos dos seus interesses e pelo imperativo de cortar pela raíz qualquer veleidade de emancipação. É hoje claro que a construção de uma Europa democrática e solidária não se fará mudando as estruturas existentes por dentro, pois estas são irreformáveis. E é hoje claro que existe uma incompatibilidade fundamental entre a rejeição da austeridade e o desejo de permanência na moeda única: o apego dos povos da periferia ao euro é como o amor do escravo pela corrente que o aprisiona.

São lições duras, mas até por isso temos obrigação de dar-lhes a devida atenção. Pior do que sofrer uma derrota é sofrê-la e não aprender nada com isso.

Por motivo de férias, esta coluna será interrompida durante as próximas quatro semanas: &conomia à 4º regressará a 18 de agosto. Aos leitores, os meus votos de um bom verão.