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Expresso

Suspense em Atenas

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O suspense que caracteriza o impasse grego não decorre da incerteza face ao que será o desfecho, mas do prolongamento da antecipação desse desfecho.

Numa famosa entrevista com François Truffaut, Alfred Hitchcock explicou da seguinte forma a diferença entre suspense e surpresa: se duas pessoas estão sentadas a uma mesa a conversar e uma bomba explode debaixo dessa mesa sem que o espectador soubesse que ela lá se encontrava, isso origina alguns segundos de surpresa; já se o espectador sabe que a bomba se encontra debaixo da mesa, estando programada para explodir às sete e meia, e os dois amigos continuam absortos a conversa enquanto um relógio em pano de fundo marca sete e vinte, o que temos são dez minutos de suspense. Assim, como sintetizou Truffaut nessa mesma conversa, o suspense não é mais do que o prolongamento da antecipação.

É uma boa analogia para o impasse actualmente existente entre as autoridades gregas e as instituições credoras, pois se a antecipação tem sido repetidamente prolongada, não são grandes as dúvidas quanto ao desfecho. A bomba, claro está, é o incumprimento soberano grego.

Nos últimos dias, como numa série de ocasiões anteriores, as dúvidas têm-se concentrado no curtíssimo prazo: irá o governo grego reembolsar os 6.700 milhões de Euros de dívida pública que vencem no mês de Junho – e que incluem 1.600 milhões de dívida ao FMI – ou, tal como declarou o Ministro do Interior Nikos Voutsis, irá entrar finalmente em incumprimento porque simplesmente “não há dinheiro”?

Neste horizonte de curtíssimo prazo, o problema é ainda passível de prorrogação adicional – prolongamento do suspense – se o governo grego e os seus credores chegarem a acordo com vista ao desbloqueamento dos 7.200 milhões de Euros correspondentes à última tranche do resgate anteriormente negociado com a troika.

Num horizonte temporal menos imediato, porém, parece-me evidente que é sempre uma questão de tempo até que o inevitável aconteça. Em Julho, vencerão outros 6 mil milhões de Euros de dívida anteriormente contraída. Em Agosto, serão 4.400 milhões. E o BCE restringiu decisivamente a possibilidade de recurso à emissão adicional de títulos de dívida de curto prazo, contribuindo assim para apertar o garrote em torno das finanças públicas gregas. Mesmo os 7200 mihões da última tranche do resgate – que estão longe de estar assegurados – tenderão por isso a revelar-se rapidamente insuficientes para prolongar por muito mais tempo o roll-over da dívida pública grega.

Nos últimos meses, os credores têm vindo a adoptar uma posição negocial cada vez mais dura, exigindo nada menos do que a capitulação total: a cedência do governo grego face à generalidade das suas promessas eleitorais e, preferencialmente, a sua demissão e substituição por um governo tecnocrático ou mais centrista. Confiam principalmente em dois trunfos negociais: a confiança no isolamento do resto da zona Euro face ao risco de contágio em caso de incumprimento e “Grexit”; e a inconsistência fundamental do eleitorado grego, cujo apego ao Euro se tem mostrado extraordinariamente resiliente face à eternização da austeridade.

Do lado do governo grego, porém, uma tal capitulação total não é de todo verosímil, nomeadamente porque seria politicamente suicida. A liderança do Syriza sabe com certeza que não pode ceder em toda a linha sem se remeter à irrelevância, até porque os credores não deixariam de recompensar um hipotético novo governo tecnocrático ou mais conservador com um alívio das condições de financiamento.

Ultrapassadas as ingénuas ilusões iniciais quanto à possibilidade de “chamar à razão” os credores e parceiros europeus, são dois os problemas fundamentais que o governo grego enfrenta – um técnico e outro político. O problema técnico é como minimizar a gigantesca turbulência a que o incumprimento dará origem; o problema político é como garantir e manter o máximo apoio popular para enfrentar essa turbulência.

A cada semana que passa,  as variáveis deste impasse alteram-se um pouco mais. Mas o problema de fundo – a insustentabilidade da dívida pública grega e, de forma ainda mais fundamental, a insustentabilidade do Euro como construção político-económica -, esse, não se altera. Como a bomba-relógio debaixo da mesa, prossegue inexoravelmente rumo a um destino anunciado.