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Expresso

Fome e finança: revisitando o debate

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Alguns anos depois das crises dos preços dos alimentos no mundo em desenvolvimento, estamos em melhor posição para identificar as causas.

Em 2007-2008, e depois novamente em 2011, o mundo assistiu a duas crises agudas dos preços dos produtos alimentares que tiveram consequências sociais e políticas de monta e que deram origem a um debate aceso acerca das causas subjacentes.

A magnitude da subida dos preços então verificada é bem visível no gráfico que representa a evolução do índice de preços dos alimentos da FAO nas últimas décadas. Na altura, afectou naturalmente com especial intensidade os países mais pobres importadores líquidos de alimentos e as populações urbanas do mundo em desenvolvimento.

Entre as consequências directas então verificadas, incluem-se os protestos e motins ocorridos em mais de duas dezenas de países. No caso particular do Norte de África e Médio Oriente – região especialmente dependente da importação de alimentos –, estes picos dos preços dos alimentos têm sido apontados por muitos analistas e investigadores como um dos mais importantes factores desencadeadores da Primavera Árabe.

No debate acerca das causas subjacentes, foram muitas os elementos então apontados como determinantes. Para alguns, as causas seriam essencialmente estruturais: a alta dos preços dos alimentos não seria mais do que uma manifestação “malthusiana” de um desequilíbrio crescente entre o crescimento da população mundial (e dos níveis de consumo de alimentos per capita) e a produção global de alimentos. Outros sublinharam antes causas conjunturais de diferentes tipos, com destaque para as quebras da oferta decorrentes de eventos meteorológicos extremos nalgumas importantes regiões produtoras. E outros ainda, entre os quais me incluí na altura, assinalaram o papel do afluxo maciço de fundos especulativos aos mercados de futuros com base em mercadorias (incluindo alimentares): o argumento era que o volume e as estratégias de investimento destes fundos especulativos amplificava as flutuações dos mercados de derivados, transmitindo-se aos preços nos mercados spot e fazendo-se sentir, em última instância, pelos vendedores e consumidores reais (não financeiros) dos alimentos.

Na altura, o debate não foi plenamente conclusivo, princiupalmente devido à dificuldade de isolar estes mecanismos causais e, em termos mais fundamentais, devido a algumas destas causas não serem mutuamente exclusivas. O argumento do efeito amplificador dos mercados de derivados não exclui a possibilidade – e até a necessidade – de factores reais desencadeadores das flutuações iniciais.

Em todo o caso, é interessante revisitar agora este tema volvidos alguns anos. Uma das coisas que verificamos – voltando a olhar para o índice da FAO, por exemplo – é que o argumento malthusiano, das causas estruturais, parece poder ser afastado. Satisfazer as necessidades alimentares da humanidade pode sem dúvida vir a ser problemático no longo prazo, mas a evolução dos preços dos alimentos nos últimos 2-3 anos não sustenta a ideia que essa fosse uma causa das crises de 2007-08 e 2011 – pelo contrário.

Em contrapartida, o facto do índice de preços dos alimentos ter continuado a (co-)evoluir de forma muito semelhante à de outras mercadorias, como o petróleo, o ouro e outros metais – não só nos picos verificados em torno de 2010 como na tendência de baixa desde então –, apoia a tese de que a causa fundamental desses dois episódios de crise dos preços dos alimentos deve ser procurada fora do âmbito estrito da oferta e procura de alimentos. Terá sido, podemos dizê-lo agora com crescente certeza, essencialmente uma consequência da financeirização dos mercados dos produtos alimentares.

Das estratégias especulativas adoptadas na bolsa de mercadorias de Chicago aos choques humanitários e políticos no mundo em desenvolvimento, a distância causal é mesmo menor do que muitos imaginavam.