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Expresso

Sala de pânico

Compras de Draghi fazem cair o euro, subir a inflação e descer juros da dívida pública

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O programa de compra alargada de dívida - e sobretudo de dívida pública dos membros da zona euro e de entidades supranacionais europeias - decidido pelo Banco Central Europeu (BCE) parece ainda não ter levado os bancos da zona euro a centrarem-se no financiamento da economia real, continuando inclusive a preferir parquear liquidez no cofres do BCE sofrendo inclusive uma penalização para tal (pois Frankfurt paga uma taxa de remuneração negativa, de -0,2%, sobre os depósitos), conforme se refere noutro artigo deste blogue.

Mas em três outras áreas, a estratégia liderada por Mario Draghi, o presidente do BCE, está a provocar o efeito pretendido, desde que o programa de compra alargada de dívida foi anunciado a 21 de janeiro deste ano, e sobretudo desde que foi colocado em prática o programa de compra de dívida pública a 9 de março.

Um dos efeitos mais mediáticos regista-se na descida para mínimos históricos das yields das obrigações soberanas no mercado secundário da dívida e das taxas de remuneração pagas pelos Tesouros aos investidores que acorrem às emissões de dívida pelos países membros do euro.

No mercado secundário, as yields das obrigações alemãs a 10 anos desceram de 0,53% a 21 de janeiro de 2015, para 0,31% a 9 de março e 0,18% no final de março. Quanto ao caso português, as yields das Obrigações do Tesouro (OT) naquela maturidade de referência caíram de 2,51% para 1,76% e 1,69% nas datas referidas. Em relação ao valor de fecho de 2014, a descida das yields das OT a 10 anos é de 1 ponto percentual até final de março.

A inflação anual (variação homóloga) negativa na zona euro deixou de agravar-se em 2015, passou de -0,6% em janeiro para -0,3% em fevereiro e -0,1% em março. No caso português, a inflação anual já saiu de terreno negativo em março: de -04% em janeiro, para -0,2% em fevereiro, e 0,3% em março.

O impacto de desvalorização cambial é, também, assinalável em 2015. O euro valia 1,1610 dólares em 21 de janeiro, desceu para 1,0852 dólares a 9 de março, e 1,0731 dólares a 31 de março, tendo registado 1,0484 dólares a 15 de março. Uma queda de 7,6% entre 21 de janeiro e final de março.

Estas três evoluções favoráveis - financiamento barato de dívida pública, inversão da tendência para deflação, e desvalorização cambial - conjugam-se com outro fator positivo, o da manutenção dos preços do barril de petróleo de Brent (que serve de referência internacional) em níveis abaixo de 65 dólares nos futuros até dezembro de 2015. O preço do barril de Brent para entrega em maio cotava-se em Londres a 58,95 dólares no fecho de sexta-feira passada.

No entanto, o relatório semestral do Departamento do Tesouro norte-americano ao Congresso dos Estados Unidos concluía, na semana passada, que os responsáveis pelas políticas europeias têm de usar a política orçamental como complemento aos estímulos monetários do BCE. Essa vai ser a posição dos norte-americanos nas reuniões da primavera do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial que se realizarão em Washington a partir da próxima sexta-feira. A cúpula do FMI parece alinhar pela mesma crítica com a sua diretora-geral a falar da necessidade de inverter a atual tendência "medíocre" da economia mundial, em particular nas ecomomias do euro.

Recorde-se que o BCE realiza a sua reunião de política monetária na próxima quarta-feira,  aguardando-se, com expetativa, a conferência de imprensa de Draghi, onde poderá desenvolver o balanço de um mês (9 de março a 10 de abril) de implementação do programa alargardo de compras de dívida, em que as compras no mercado secundário de dívida soberana somaram 61.681 milhões de euros.