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Sala de pânico

Varoufakis não é Usain Bolt. Nem que fosse

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É possível uma pessoa fazer Lisboa-Porto a correr em menos de oito horas (em linha reta)? Sim, claro. Desde que corra a uma velocidade média de 36 quilómetros por hora é fácil. E isso é possível? Sim, claro. Usain Bolt até correu ligeiramente mais rápido quando bateu o recorde do mundo dos 100 metros com 9,58 segundos.

Esta imagem quase surreal cola-se na perfeição às negociações entre Atenas e os credores internacionais. Sem querer entrar na discussão sobre as culpas, que estão claramente repartidas, há algo que parece inegável: o que está a ser exigido à Grécia é o equivalente orçamental a pedir a Bolt que corra de Lisboa ao Porto à velocidade dos 100 metros.

As atuais exigências dos credores em termos de metas de saldo orçamental primário (sem juros) são já menores que as originais mas continuam, mesmo assim, a implicar uma série de anos consecutivos com valores que não são frequentes na zona euro e que alguns países nunca conseguiram sequer num único ano.

As metas, que até já estão alinhadas com Atenas, são de 1% do PIB este ano, 2% no próximo e 3,5% a partir de 2017. O problema é que 1% é difícil, 2% é muito difícil e 3,5% é um patamar quase impossível. Basta ver, por exemplo, que dos 28 países da União Europeia há 14 que não conseguiram ter qualquer ano com excedente acima de 3,5% durante as últimas duas décadas (1995-2014). E mesmo quando se baixa a fasquia para 2% ou 1% continuam a haver países que nunca o conseguiram, respetivamente, 11 e sete casos.

Os pontos no gráfico representam as 560 observações, correspondentes a 20 anos de 28 países, e mostram como passar a barreira do 0% já é difícil e como só alguns chegam ao pico do Everest dos 3,5%. A linha verde corresponde a saldo zero e as amarela e vermelha a, respetivamente, 3,5% e 4,5%. Recorde-se que, na proposta inicial, que vinha ainda do programa da troika, a meta para a Grécia era chegar a 4,5% de excedente primário e mantê-lo.  

Portugal, por exemplo, nunca teve um único ano com excedente primário acima de 1%. Nestas duas décadas, teve cinco anos de superávite – 1995, 1996, 1997, 2013 e 2014 – mas sempre valores entre 0% e 1% do PIB. Só este ano, se se confirmarem as previsões, é que será conseguido o primeiro valor acima de 1%, mais concretamente 1,8% segundo as últimas estimativas da Comissão Europeia (o governo aponta para 2,2% no Programa de Estabilidade que apresentou em abril).

Pior ainda é quando se avalia a capacidade de os países manterem excedentes de 3,5% durante vários anos. Os países recordistas nestas duas décadas foram a Finlândia (com 11 casos) e a Dinamarca (com 10). No caso finlandês, conseguiram-se 11 anos consecutivos enquanto os governos dinamarqueses conseguiram, no máximo, cinco anos de cada vez.

Mas os restantes desempenhos são bastante piores: a Suécia e a Hungria passaram ambas oito vezes a fasquia dos 3,5% (quatro e seis vezes seguidas, no máximo, respetivamente), o Luxemburgo sete vezes (cinco seguidas) e Itália e Irlanda com seis vezes cada (seis e cinco seguidas, respetivamente).   

Nem a austera Alemanha consegue este tipo de desempenhos. Apenas por uma vez conseguiu um excedente superior a 3,5% do PIB e, mesmo quando se baixa a fasquia para 1%, apenas cumpre em metade dos casos.

O que se pede à Grécia é que mantenha excedentes primários de 3,5% durante muito tempo. Para voltar aos 60% do PIB terá que fazê-lo durante duas décadas. Partindo de uma dívida de 182% do PIB no final de 2014, estará ainda mais de 20 pontos percentuais acima dos 120% do PIB no final desta década. O que poderá implicar que a Europa encontre uma forma de perdoar esta diferença para cumprir a garantia que deu ao Fundo Monetário Internacional (FMI) na reestruturação de 2012. Como aliás, lembrou esta semana o economista chefe do FMI, Olivier Blanchard.

O problema é que mesmo este cenário implica uma dose de austeridade sem precedentes na zona euro. Acreditar que vai ser pelos saldos primários que se resolve o problema é o mesmo que achar que, com as sapatilhas certas, Bolt consegue manter a velocidade. Não é, como aliás já foi sublinhado antes no Sala de Pânico com os vários cenários para o saldo primário.

O corolário lógico é só um: a dívida grega não vai ser integralmente paga e, mais tarde ou mais cedo, terá que ser reestruturada. Seja por extensão de maturidades, redução de juros, corte de valor nominal ou uma mistura de tudo isto. A menos que se acredite que Bolt é um super-herói. Mas, nesse caso, deve mudar o nome para Flash.