Siga-nos

Perfil

Expresso

Empresários assustados, recessão garantida

  • 333

Há imagens que valem mais do que mil palavras e este gráfico, apresentado hoje pelo economista italiano Tito Boeri no Fórum do Banco Central Europeu (BCE) em Sintra, é um desses casos. A definição da imagem não é a melhor - foi assim retirado do documento original - mas vale pelo conteúdo que ilustra a perceção das empresas sobre a crise no período 2010-2013.

O eixo horizontal representa a percentagem de empresas com redução de procura dos seus produtos ou serviços neste período. No eixo vertical, está representada a percentagem destas para quem esta quebra de procura é permanente. 

No caso português, assinalado a vermelho, temos uma situação em que cerca de 52% das empresas enfrentou menor procura nestes quatro anos e, destas, aproximadamente um terço tomou como permanente este cenário. Os dados utilizados por Boeri são resultados ainda preliminares da terceira vaga do inquérito internacional da Wage Dynamics Network que reúne investigadores do Banco Central Europeu (BCE) e dos bancos centrais nacionais dos países da União Europeia. 

O gráfico, que não tem a Grécia, revela que os empresários portugueses são os segundos que mais acham que a má situação de procura é permanente. Pior só a Croácia. Isto apesar de haver países onde a percentagem de empresas que enfrentaram quebras de procura é superior.

Estes dados refletem, no fundo, a forma como uma recessão se prolonga no tempo. Uma coisa são efeitos temporários, outra completamente diferente são alterações permanentes. Mesmo apenas uma perceção de alteração permanente pode ter um impacto duradouro.A ideia é simples e pode ser facilmente comprovada com situações quotidianas. 

Por exemplo, um trabalhador que tenha sido promovido e o salário duplicado acredita que, para o futuro, vai ter o dobro do rendimento e pode ajustar o seu nivel de vida. Pode mudar de casa, por exemplo, ou assumir novos compromissos permanentes. Se receber um prémio pontual, irá eventualmente gastá-lo numa despesa concreta mas, a menos que seja o Euromilhões com jackpot, não vai mudar de vida por causa dele.

Nas empresas é, mais ou menos, a mesma coisa. Uma quebra temporária de procura - um ano de recessão, por exemplo - não leva obrigatoriamente a grandes alterações de estratégia. No limite, à parte de alguns contratos ajustáveis per se  ou de trabalhadores temporários ou a prazo que não se mantém, não se esperam despedimentos em massa ou outras decisões relevantes. 

Pelo contrário, se os empresários interpretarem a quebra de procura como permanente - mesmo que na verdade não seja - vão reduzir de forma mais significativa a capacidade produtiva. Não só podem fazer despedimentos, em trabalhadores permanentes, como não vão investir e isso afeta drasticamente a capacidade produtiva futura. 

Um dos problemas da recessão e dos falhanços de algumas estimativas de desemprego m Portugal, daquilo que se sabe hoje, tem precisamente a ver com isto. Para muitos empresários, o impacto da crise foi muito forte e as perspetivas futuras eram negras. O que levou a que, em muitos casos, optassem por reduzir rapidamente o emprego e o investimento. O que se traduziu no agravamento da recessão no próprio ano mas também teve e está a ter consequências no potencial de crescimento futuro da economia.