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Expresso

A verdadeira dor de cabeça do BCE

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Uma queda de preços parece boa notícia, para quem compra, mas é um péssimo sintoma sobre a saúde de uma economia. É sinal de fraca procura e de expetativas pouco animadoras sobre o futuro. As recessões mais graves - ou as depressões, como muitas vezes se designam - sofrem precisamente deste mal. 

Por mais estranho que possa parecer aos mais distraídos, a grande preocupação do Banco Central Europeu (BCE) neste momento é precisamente a baixa inflação. Nalguns países e/ou meses, há mesmo variações negativas dos preços. 

O risco maior não é a descida pontual do nível de preços, que até pode ser resultado de acontecimentos externos como a evolução do preço do petróleo. O risco é que uma variação que até possa ser pontual, ao início, se torne num processo que se auto-alimenta: as pessoas adiam compras à espera de descida dos preços, as empresas não vendem, despedem e vão à falência e, no final, há mais desemprego, menos salários, menos procura e tudo começa de novo. 

A inflação que é divulgada mensalmente pelo INE, no caso portugês, e pelo Eurostat para a zona euro e União Europeia, já é passado. Já aconteceu. Por mais que o BCE faça ou que aconteça na economia, já não pode ser alterado. Por isso, o BCE foca-se nas projeções de inflação e não na taxa de inflação passada.  

E é aqui que está o busílis da questão. O que deixou Mario Draghi e os seus pares de cabelos em pé não foi da queda da taxa de inflação per se - até porque em 2009 foi pior - mas a queda das expetativas de inflação. Ou seja, os agentes económicos, cujos comportamentos e decisões vão ser determinantes na evolução da inflação no futuro, esperam que nos próximos anos a taxa se mantenha abaixo dos 2% pretendidos pelo BCE. 

Como se vê no gráfico, retirado do Boletim Económico do Banco de Portugal publicado hoje, em 2009 houve uma queda abrupta da taxa de inflação homóloga (a verde) para valores negativos, mas durante esse período as expetativas para a inflação a 4 e 5 anos (a vermelho) nunca caíram abaixo de 2%. 

Agora, no entanto, não só a taxa de inflação caiu para valores negativos no final de 2014 como também as expetativas para os próximos anos estão abaixo da meta do BCE. Estes dados terminam no final de 2014 e não refletem a inversão que já aconteceu este ano, em particular depois de anunciado o programa de compra de dívida do BCE em janeiro, mas a situação está longe de estar resolvida. 

Esta é a grande dor de cabeça de Draghi: convencer toda a gente que a inflação vai mesmo subir.