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Expresso

&conomia à 3ª

Prenda de Natal: solidariedade ou viagem a Paris na TAP?

Desde há muito tempo que os conceitos de patriotismo e nacionalismo têm sido esquecidos em Portugal. Outros "ismos" se puseram entretanto no seu caminho.

As excepções históricas têm sido as guerras e mais recentemente (há 40 anos!) as revoluções de 1974 e 1975. Da mesma forma, a cultura e o desporto também sempre foram motivos de orgulho e projecção nacional e internacional do patriotismo português.

No entanto, o amor e devoção à pátria, aos seus costumes, tradições e valores apenas são comparáveis ao reduzido espírito de solidariedade entre os portugueses, sendo cada vez mais privilegiados os interesses privados em detrimento dos interesses comuns e/ou públicos.

Agora por alturas do Natal, fica sempre bem expiar os nossos pecados com expressões e actos de solidariedade avulsas e desconexas para reforçar o já tão agastado ego individual através da pseudo-prática do bem comum. Oferecer umas sopas ainda limpa a alma de alguns. Mas não resolve o problema.

Este Natal assombrado pelos fantasmas da crise e por tantos zombies políticos terá controlo de Vistos Gold à entrada, para garantir que só se sentam à mesa do poder quem dele faz proveito.

Nem o clima de fim de festa do regime sem justiça demove os comensais.

A história política recente e os demasiados casos de políticos a contas com a justiça mostra bem quão mal anda a defesa do interesse comum pelos responsáveis públicos. Políticos ou não. E são um péssimo exemplo para a nossa sociedade já pouco solidária.

Casos como os Vistos Gold, de ex-presidentes de camara e ex-primeiro ministros levam ao descrédito da defesa do bem comum e encurralam os interesses públicos em terra de ninguém.

A impunidade dos responsáveis públicos faz alastrar a desconfiança dos interesses privados da economia (os portugueses!) que corrói as já fracas bases da solidariedade na sociedade.

Por dever patriótico, a solidariedade deveria ser cada vez mais económica. A iniciativa privada de movimentos de cidadãos deve liderar a escolha de causas a apoiar. E controlar os apoios públicos.

Privilegiar a compra de produtos portugueses e de serviços de empresas portuguesas, promove o emprego, fomenta o investimento e desenvolve a economia. Em qualquer sector de actividade, desde a agricultura ao calçado, passando pelas pescas e transportes.

O patriotismo económico é fortíssimo no Reino Unido, onde todos os produtos publicitam a sua proveniência nacional e são claramente preferidos aos demais, com significativa resistência a diferenças de preço, considerando o elevado poder de compra dos britânicos.

Da mesma forma, os britânicos possuem uma cultura de solidariedade com base em movimentos de cidadãos, para além dos apoios estatais que não são poucos. Muitos movimentos solidários civis recebem donativos do Estado em seu apoio.

A título de exemplo, o jornal gratuito diário London Evening Standard lançou uma campanha de solidariedade este Natal para apoiar os ex-militares que combateram pelo Reino Unido e que hoje são carenciados ou até mesmo sem abrigo. Desta vez o Estado contribuiu com um donativo de £3 milhões, provenientes de multas ao sistema financeiro local.

Os portugueses não têm esta cultura nem semelhante poder de compra, mas o efeito do patriotismo económico é brutal. Veja-se o caso da TAP.

Se não fosse pelo dever patriótico e solidariedade de alguns portugueses, como eu, que com profundo sentido de responsabilidade social, forte idealismo nacionalista e exagerado amor à pátria ainda suportamos as desorganizadas rotas da TAP e as ineficientes "avarias técnicas" que servem de desculpa para cancelar voos vazios e encher voos já de si cheios, com franco prejuízo para o cliente, a TAP já teria sido privatizada. Ou falido. Ou tomada de assalto pelos sindicatos. Ou já foi?

A falta de solidariedade e cultura de patriotismo económico em Portugal é tão grave que a TAP nem percebe que lhe deve a sua existência. Nem os trabalhadores. Muito menos os sindicatos. Também acham que devem a sua existência ao vento, tal como as caravelas dos Descobrimentos...