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&conomia à 3ª

O verdadeiro Dono Disto Tudo iludiu todos e vai safar-se?

Já escrevi aqui várias vezes sobre o verdadeiro Dono Disto Tudo. A sua relação com os mercados, com os países da União Europeia, com os governadores dos bancos centrais de cada país e com os jornalistas, continua a ser um excelente exemplo de uma notável capacidade política de gestão de expectativas.

Pouco se tem falado em Portugal sobre a crescente importância do Banco Central Europeu ("BCE") na economia e na política monetária da Europa e dos seus países, agora com o poder acrescido de supervisão dos principais bancos nacionais, de todos os países europeus.

O BCE é, cada vez mais, o verdadeiro Dono Disto Tudo.

Uma das principais razões para não se levantarem mais vozes contra esta crescente perda de soberania deverá ser Mario Draghi. Se Draghi não fosse um simpático italiano mas fosse um alemão sisudo nada seria o mesmo.

O BCE continua a acumular poderes com o afável Draghi mas não esqueçamos que o próximo governador do BCE deverá ser o alemão Jens Weidmann, como já aqui escrevi.

E nessa altura todos se aperceberão finalmente do excesso de poderes que aceitaram transferir para o BCE.

O simpático e experiente economista-político Draghi tem iludido com grande sucesso nos últimos meses as expectativas dos mercados acerca da há muito anunciada e tão esperada intervenção do BCE na compra de títulos de dívida pública de países europeus. Esta gestão ilusionista do BCE tem sido feita com sofisticados jogos de palavras, intenções, expectativas e sensibilidades políticas e económicas.

De facto, sem tomar decisões não-convencionais nem medidas com efeitos de valor considerável, Draghi tem conseguido atingir grande parte dos seus objetivos táticos gerais. Conseguiu desvalorizar o Euro, reduziu os spreads da dívida pública dos países periféricos face à Alemanha e evitou uma queda acentuada dos mercados de capitais.

Claro que os objetivos centrais de subir a taxa de inflação para perto de 2% e acabar com a estagnação da zona Euro, fomentando o crescimento, não serão atingidos apenas gerindo expectativas com o total compromisso do BCE em fazer tudo o que for necessário, quando for necessário.

E aqui está a ilusão. A definição de "quando for necessário".

Tudo isto com o apoio da Alemanha e de Weidmann que consideram a compra de dívida pública de países europeus uma medida desnecessária, contraproducente e que pode prejudicar o BCE e a sua reputação. Talvez somente aceitável "quando for necessário"! Até lá vão deixando o BCE gerir os mercados no plano das intenções. Como lhes convém. E assim deverá manter-se até à Primavera-Verão de 2015.

A expectativa/esperança/aposta do BCE será que por essa altura as taxas de juro dos EUA estejam bem mais altas, a recuperação económica dos EUA esteja já comprovada e sustentável, o preço do petróleo tenha já começado a recuperar e o Euro tenha valorizado. O resultado será algum crescimento económico e subida da inflação na Europa.

Voltaremos assim a ser todos felizes com mais uma recuperação económica a reboque dos EUA.

Há coisas que nunca mudam... por muito dinheiro que gastemos com as instituições europeias para nos protegerem, gerirem e supervisionarem.

E assim o verdadeiro Dono Disto Tudo irá ver premiada a sua estratégia de iludir os mercados prometendo ação mas nunca agindo. E talvez se safe com a ajuda dos Americanos, nossos velhos aliados políticos e principalmente económicos na saída das crises mundiais. Basta esperar pela ajuda. Até ao dia que seja tarde demais.