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Expresso

&conomia à 3ª

E o Sócrates da direita é...

Portugal passou de um país sem corrupção para um país de corruptos, em duas semanas. A sociedade portuguesa tem sentimentos e emoção com fartura, para compensar a falta de memória. Mas nada disto é novidade.

Considerando o atraso histórico, político e estrutural de Portugal face à restante Europa Ocidental, podemos nela encontrar alguns paralelismos com a novela de Sócrates para prever os próximos capítulos e até mesmo antecipar que tudo vai acabar bem e todos muito felizes da vida. Por dificuldades de memória, pois o tempo cura tudo...

Em política, o que parece é!

Sócrates já foi condenado por quem o queria condenar e já foi absolvido por quem o queria absolver. Em termos de opinião pública já é o suficiente. Pois é o que interessa.

Se Sócrates fosse libertado hoje, ainda poderia concorrer às próximas eleições Presidenciais e arriscava-se a ganhar (com a ajuda da nossa sempre lenta Justiça), a julgar por todo este aparato de apoio, vitimização e de cabalas.

O Mundo da Política é lindo! Não há espaço para rancores nem ressentimentos.

Analisemos o caso de França e de Sarkozy que está de volta à ribalta da política ao mais alto nível europeu.

Sarkozy ganhou este fim de semana a liderança do seu partido de centro-direita União para um Movimento Popular ("UMP") com 64,5% dos votos. Longe da vitória estrondosa de 2004 com 85% dos votos, tem ainda que submeter-se a eleições primárias para ser eleito candidato Presidencial pelo seu partido. E depois "basta" vencer as eleições Presidenciais em 2017, já sem os melhores sonhos de esquerda de Hollande, que se tornaram entretanto nos piores pesadelos dos Franceses.

Sarkozy sempre teve uma relação muito atribulada com a Alemanha. Desde os seus tempos de responsável pelo orçamento de Estado (1993-1995) e Ministro das Finanças (2004), a sua reputação abrasiva e de confronto acompanhou-o na Presidência em 2007.

Um dos seus primeiros actos na Presidência foi fazer-se de convidado para uma reunião de Ministros das Finanças Europeus em Julho de 2007 (imediatamente antes da crise financeira global eclodir) para negociar com a Alemanha o adiamento dos cortes orçamentais exigidos a França, já nessa altura!

Depois em 2010, no auge da crise, terá alegadamente (de acordo com rumores da altura) ameaçado Merkel com a saída de França da Moeda Única para novamente adiar os cortes orçamentais impostos. Com sucesso.

Em 2011 terá, juntamente com Obama, forçado Merkel a aprovar um plano de último recurso (mais tarde retirado) para resgatar a Grécia com reservas próprias do Bundesbank.

Por isto, com Sarkozy na corrida e independentemente do que aconteça nas eleições Presidenciais de França em 2017, as relações Franco-Alemãs irão tornar-se mais voláteis, complicadas e de maior confronto. Agravadas pelas recentes e crescentes tensões económicas e financeiras entre ambos.

Se Sarkozy for eleito Presidente de França em Abril-Maio de 2017, irá defrontar Merkel nos 4 difíceis meses que irão anteceder as eleições gerais na Alemanha, que deverão ocorrer em Setembro de 2017.

Para ajudar a confusão, esse período deverá ainda incluir o referendo no Reino Unido sobre a permanência na Uniao Europeia.

Isto tudo apesar de Sarkozy ser arguido e encontrar-se ainda sujeito a investigações oficiais sobre alegada corrupção, o que em nada impediu o seu renascimento político na sociedade.

Sarkozy é o Sócrates da direita em França.

Embora a comparação dos casos de corrupção de Sócrates e de Sarkozy possa ser difícil ou até mesmo impossível, fica a comparação política e social. E da justiça.

Como as eleições não se ganham, apenas se perdem, é uma questão de tempo e oportunidade para Sócrates voltar, que está perdoado. Até lá, "o que faz falta é animar a malta"! Enquanto deixamos a Europa nas mãos de Sarkozy...

 

Nota: a 15 de Julho escrevi aqui neste espaço a minha opinião bastante negativa e crítica sobre o programa dos Vistos Dourados, com o título "Prostituição de Estados?". Nessa altura ninguém se opunha ou criticava tal programa. Afinal o seu sucesso de campeão de vendas mundial devia-se aos efeitos multiplicadores da corrupção, descobertos há 2 semanas, e agora já todos opinam sobre a matéria. Até que enfim.