Siga-nos

Perfil

Expresso

Brexit: mayday

A infeliz ideia de referendar a saída do Reino Unido da União Europeia foi de David Cameron que, para assegurar a vitória da liderança do seu Partido Conservador, prometeu aos membros mais conservadores do seu partido dar voz ao povo para decidir o futuro das próximas gerações britânicas e europeias.

O maior problema de alguns políticos britânicos demonstrou assim ser a sua teimosia em cumprir as promessas eleitorais, pelo menos dentro do seu partido, ainda que por excesso de confiança no resultado esperado, que obviamente seria a recusa do Brexit.

Assisti em Londres à campanha populista e demagógica dos defensores do Brexit, com total falta de seriedade intelectual e até irresponsabilidade política e social, tendo baseado o racional de voto num conjunto de falsidades, agora vulgarmente conhecidas como fake news.

A separação social e política entre jovens e idosos e entre centros urbanos e meios rurais afastou os já fracos elementos de ligação entre os reinos que nunca foram unidos, criando clivagens geracionais que destabilizam a economia e a sociedade britânicas.

A presença de Boris Johnson como “ministro” dos negócios estrangeiros no governo de Theresa May sempre foi um sinal da sua fraqueza enquanto Primeira-Ministra, que subiu ao poder através do equilíbrio de um conjunto de forças negativas, resultantes de um resultado pouco expressivo do referendo que nunca apoiou.

A velha máxima de manter os inimigos por perto foi determinante para a permanência de Boris no governo de May. Para além de ser a cara mais expressiva dos Conservadores na campanha do Brexit, sempre foi um eterno candidato à liderança do partido.

As óbvias dificuldades em efetivar o Brexit, aliadas às suas atualmente não menos óbvias consequências negativas económicas e sociais, forçaram May a suavizar as exigências à UE para evitar um recuo completo nas suas pretensões. A constante negociação com os apoiantes da saída e da permanência na UE obrigaram May a entrar em profundas contradições nos compromissos assumidos com a UE e com o seu parlamento.

O instinto político oportunista de Boris forçou a sua demissão ontem, de forma a fragilizar May no seio do partido após a demissão do negociador do Brexit David Davis, tentando capitalizar nos poucos argumentos ainda a favor da saída da UE, mesmo sem acordo.

Mas a questão principal não parece ser se haverá eleições no partido conservador ou no parlamento, pois a situação do país é cada vez mais ingovernável em direção à saída da UE. Antes do referendo o Reino Unido crescia significativamente mais que a EU e agora é o contrário, sem previsões de inversão.

Alguns fabricantes de automóveis, o último dos quais a BMW, já anunciaram que não iriam investir mais no Reino Unido se não garantirem a permanência no mercado único, podendo afetar mais de 140 mil empregos diretos do sector. Da mesma forma, a Airbus já anunciou que não irá aumentar a sua base de fornecedores no Reino Unido se nenhum acordo com a UE for atingido, representando mais de 100 mil empregos.

Estimativas do FMI indicam que o PIB do Reino Unido em 2030 será 12% inferior, se continuarem a crescer menos que a UE até lá, enquanto o Centro para a Reforma Europeia estima que a economia britânica é já 2,1% mais pequena devido ao referendo do Brexit.

Mais uma vez, os políticos britânicos insistem em guerrilhas internas de poder e em prosseguir teimosamente políticas que nada defendem o interesse nacional, cuja definição ficou seriamente afetada com o resultado do referendo. E não deverá ser Boris e o seu bom senso que irão salvar aquela ilha da deriva.