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Expresso

Europa refugia-se dos refugiados

A trágica história da Europa não pára de surpreender a memória coletiva dos povos dos países europeus, cujas aspirações a serem cidadãos da Europa se tornaram em vagas ilusões de prosperidade e convivência pacífica num território partilhado.

A Europa afunda-se no pântano das eternas crises políticas que atolam a cada vez mais instável união económica e monetária, em mais um teste à resistência do Euro na crescente clivagem entre o norte e o sul da Europa.

As recriminações mútuas entre os países da zona euro aquando dos programas de assistência financeira entre 2010 e 2015, em que os países devedores criticavam a exagerada exigência dos credores e estes castigavam a ingratidão dos devedores, ressurgem agora com as diferentes posições assumidas sobre as políticas de migração.

Os maiores devedores europeus, liderados pela Itália e Grécia, que muito sofreram com as dificuldades criadas pela união económica e monetária durante a crise financeira, suportam agora o forte impacto da migração proveniente das áreas problemáticas de África e do Médio Oriente.

Os maiores credores europeus, liderados pela Alemanha, que representam o principal objetivo final dos migrantes, provocam um sentimento de ressentimento nos países de entrada dos migrantes pela falta de auxílio financeiro e humanitário, criando a sensação que a Europa ignora as suas dificuldades. Mais uma vez.

A recente instabilidade política na Alemanha causada pelas exigências do parceiro de coligação do Governo de Merkel para recusar a entrada de migrantes que já tenham pedido asilo noutro Estado-membro, retira poder negocial à Alemanha na Europa.

Assim, a fraqueza da Alemanha na liderança do eixo franco-alemão condiciona a efetivação das políticas já planeadas para reforçar o Euro, incluindo a criação de um orçamento de investimento para membros da zona Euro e a transformação do Mecanismo de Estabilidade Europeu num Fundo Monetário Europeu, para apoiar o sistema financeiro europeu.

Da mesma forma, Macron fica isolado no seu ímpeto reformista europeu e consequentemente exposto internamente à pressão dos partidos anti-europeus em França, cuja representatividade não parou de crescer desde as últimas eleições.

Como bem se percebe agora, o adágio do ex-Chanceler da Alemanha Willy Brandt no início dos anos 70, quando ganhou o Nobel da Paz, de que “o maior perigo para a estabilidade da Europa é uma Alemanha fraca, e não uma Alemanha forte”, continua muito atual. Tal como a instabilidade na Europa…