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Expresso

Não são todos Ronaldos das Finanças

Longe vão os tempos do cenário macro-económico que serviu de base ao programa eleitoral do PS, heroicamente incluído no relatório entitulado “Uma década para Portugal” e elaborado por doze ilustres economistas liderados por Mário Centeno, dos quais seis viriam a integrar o actual governo.

No longínquo ano de 2015 era impossível prever que seria um governo de esquerda a conseguir fazer o que nenhum governo de direita conseguiu alguma vez fazer, nem nunca conseguirá sem o apoio de toda a esquerda, como o actual governo conseguiu.

À boleia de uma conjuntura internacional extremamente favorável e do aumento fulgurante das exportações, muito influenciadas pela febre do turismo que tem afectado Portugal, os seis economistas sobreviventes no governo rapidamente viraram a página do relatório, em vez da página da austeridade, e saltaram logo para as conclusões, vangloriando-se de tal salto olímpico com vista a bater mais um recorde nacional.

Finalmente um governo consegue ir realmente para além da Troika, cortando os défices orçamentais como quem salta de nenúfar em nenúfar num qualquer lago de austeridade com tamanha ligeireza e habilidade que faz corar a direita de inveja.

Contra os melhores ensinamentos de qualquer economista de esquerda, ou de direita, o sempre desagradável aumento da carga fiscal foi feito através do aumento dos impostos indirectos, promovendo a injustiça social, pois a grande maioria dos que nem tem rendimentos suficientes para pagar impostos directos, pagam os mesmos impostos indirectos que aqueles que auferem maiores rendimentos. Para governo de esquerda não está mal.

A estratégia de jogo tem vindo a ser afinada e a tática do polícia bom contra o polícia mau, inicialmente usada entre governo e partidos de esquerda seus apoiantes, é agora usada dentro do próprio governo, pois os parceiros já não querem jogar, apesar da bola ser deles.

O inicial silêncio da maioria de esquerda sobre as graves insuficiências orçamentais na educação e na saúde, impossíveis de serem escondidas por mais tempo, dá agora lugar a uma contestação nas ruas que já ninguém consegue levar a sério.

Ronaldo continua assim a ser o melhor jogador em campo, driblando os seus próprios companheiros de equipa que insistem em marcar golos na própria baliza e a dizer que a culpa é do árbitro Costa.

Ronaldo bate todos os recordes porque, para além de um talento natural para ponta de lança a jogar a direita, tem toda uma equipa a jogar para ele e a defender o seu jogo perigoso mas eficaz, que o levará a jogar num qualquer clube europeu no futuro próximo.