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Expresso

O teatro da política

A semana passada foi mais uma daquelas alturas em que surgem dúvidas sobre a relação causa-efeito das políticas do governo em relação aos sucessos e insucessos do país e dos portugueses.

Já todos perceberam que o sucesso económico recente advém principalmente da excelente conjuntura internacional, não só económica como também de política monetária, que por sua vez permite o actual sucesso orçamental, batendo todos os recordes nacionais, mesmo sem querer...

A viragem da página da austeridade permitiu assim aumentar a carga fiscal ao mais alto nível dos últimos 22 anos e ir para além da Troika que suporta o governo, contra todas e quaisquer expectativas do próprio governo e dos partidos que o suportam na Assembleia da República.

Para além das graves consequências das políticas de cativações, que constam da página seguinte à austeridade no livro do governo, sentidas por todos na saúde, na educação, nos transportes públicos e na protecção civil, assistimos na semana passada a mais um show de política anti-austeridade.

Desta vez foi a querida cultura que não resistiu à magnânima capacidade de gestão e organização dos responsáveis políticos do primeiro governo de esquerda, apoiado por todas as esquerdas.

Apesar de a actual proposta de dotação orçamental de esquerda para o Programa de Apoio Sustentado da Direção-Geral das Artes ser superior à anterior dotação de direita, como mandam os livros, o inesperado volta a acontecer, confundindo novamente os portugueses com tamanha anti-austeridade de esquerda.

O pomposo novo modelo de atribuição de apoios aos agentes culturais, tão democrático que tinha oscultado mais de 500 desses agentes artísticos e que incluía um não menos pomposo júri independente, foi assim completamente fuzilado pelos seus resultados desastrosos, tendo tido no Primeiro Ministro o seu principal carrasco. A concurso tinham ido seis modalidades culturais: circo contemporâneo e artes de rua, dança, artes visuais, cruzamentos disciplinares, música e teatro

Mas o júri era demasiado independente, tendo por exemplo na área do teatro excluído candidatos com importante história de criação cultural e outros de partes do país que ficaram sem apoio, como Évora ou Covilhã, por não considerarem meritórias as suas candidaturas. Pois como bem dizia um importante socialista afastados das actuais lides políticas, “os independentes são muito imprevisíveis”...

A desautorização do júri, do Ministro da Cultura, do seu secretário de estado e de todo o Ministério da Cultura foi assim a melhor forma de apaziguar os ânimos do sector, cujo sentimento de traição pelas esquerdas foi retribuído com mais dinheiro ad-hoc, para anular qualquer critério de seleção ou avaliação que o júri independente teve a ousadia e a infelicidade de utilizar.

De facto, num país onde os professores não são avaliados e os alunos são-no cada vez menos, porque razão os agentes culturais deveriam ser prejudicados com qualquer avaliação ou seleção?

Além do mais, a política tem muitas semelhanças com o teatro, como se vê pelos partidos que apoiam o governo na Assembleia da República e que o contestam nas ruas com extraordinário talento teatral. Apoiemos então os novos talentos.