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Expresso

Não há tempo para proteccionismo

O proteccionismo económico voltou à ordem do dia mundial logo na campanha eleitoral de Trump, como a solução para todos os males da economia doméstica e dos revoltados eleitores, através da recuperação dos sectores de actividade da sua indústria em depressão.

A decisão comunicada recentemente sobre a imposição de tarifas aduaneiras sobre as importações de aço e alumínio, ajustada depois pelas isenções concedidas aos seus aliados, constituem afinal um ataque comercial direccionado à China, visando diminuir o défice comercial com esse país em cerca de $100bi.

Trump parece, no entanto, não compreender as componentes fundamentais do comércio internacional, nem o que causa défices ou excedentes comerciais. Por isso, a probabilidade de uma guerra comercial é cada vez mais real, principalmente depois de Trump ter anunciado na passada semana que iria limitar também o investimento chinês em empresas americanas de tecnologia.

Como bom proteccionista, Trump deveria saber que o défice comercial dos EUA é “Made in USA”, e não causado por práticas injustas de comércio internacional de um qualquer seu arqui-inimigo, como faz crer para consumo interno.

O défice comercial é apenas o reflexo do que acontece na economia interna dos EUA. Se a despesa interna pública e privada exceder a geração de riqueza nacional, o que é equivalente a dizer que consomem mais do que produzem como tem acontecido em valor acumulado desde 1975, o excesso de despesa será canalizado para as importações, criando o histórico défice comercial.

Assim, a imposição de tarifas aduaneiras anti-China irão provavelmente diminuir o défice comercial bilateral, mas não reduzirão o défice comercial global, pois outros países irão rapidamente fornecer o que os consumidores e investidores americanos procuram, porque a economia interna não tem capacidade de resposta no médio prazo.

A única forma eficaz de diminuir o défice comercial seria através da redução do défice orçamental, mas quase todas as políticas de Trump terão efeito contrário, aumentando a despesa e reduzindo a receita fiscal, do que resultará um ainda maior défice comercial.

O clima de ameaça de uma guerra comercial e de retaliações multilaterais põe em risco a recuperação económica, o emprego, a inovação e o emprego globais. Longe vão os tempos em que medidas protecionistas faziam desenvolver a indústria doméstica porque os países tinham tempo para esperar pelos efeitos benéficos internos. Mas tempo é o que os consumidores e investidores actuais não possuem nesta acelerada economia global. Pois é a única coisa que não se compra...