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Expresso

Tudo isto é grave, tudo isto é fado

Assistimos na semana passada a mais um episódio da novela em que a vida dos portugueses se transformou. Os mais tristes e vergonhosos acontecimentos do ano passado tiveram o expectável fim, à vista desde o início das profundas e aturadas investigações prometidas para o cabal apuramento de responsabilidades, propagandeado pelo desespero dos responsáveis na altura, em atabalhoada resposta à pressão da opinião pública.

O relatório da comissão independente ao incêndio de Outubro passado vem finalmente, sem surpresa, apontar culpas e responsabilidade do Estado e do governo, concluindo que falhou a capacidade de "previsão e programação" para "minimizar a extensão" do fogo na região Centro onde ocorreram as mortes, perante as previsões meteorológicas de temperaturas elevadas e vento.

Para além da apontada falta de meios devido à redução do contingente decidida pelo governo no “final do Verão”, as alterações efectuadas na estrutura da Protecção Civil em vésperas de época de incêndios, expuseram as motivações políticas em toda a sua incompetência na previsão e gestão operacional da catástrofe.

Volta assim a ser penoso ouvir o ex-secretário de estado da administração interna dizer que os incêndios grandes não se apagam. Como quem diz que nem vale a pena serem combatidos, contrariados ou limitados. Mas mesmo que assim seja, deviam então ter dispensado mais tempo e recursos a prever e programar o risco de catástrofe que se antecipava muito elevado.

Com o pouco que ainda resta para arder em Portugal, espera-se um ano mais calmo em matéria de incêndios, pois não é com a grande reforma da floresta tão propagandeada que os portugueses podem dormir descansados.

Como bem dizia o mesmo ex-secretário de estado em pleno decorrer do maior incêndio do mundo em 2017, os portugueses têm que aprender a defender-se do fogo e “a serem proativos na autoproteção, não podendo ficar à espera que apareçam os bombeiros ou os aviões para resolver o problema”.

A insistência agora do ex-responsável na narrativa que não houve falhas na sua tragédia de mandato, em resposta às conclusões sobre a responsabilidade do Estado e do governo, volta a ser de extremo mau gosto, e só por isso novamente condenável.

Mais ridículo ainda, mas no entanto menos grave por termos tido a sorte de não haver vítimas mortais, foi o relatório sobre o roubo de Tancos, cuja semelhança com qualquer episódio da série Monty Python's Flying Circus deverá ser apenas coincidência.

Os portugueses ficaram agora a saber que todos os (ir)responsáveis fizeram o que puderam, quer no exército quer no governo, não havendo culpas nem responsabilidades de ninguém. A culpa terá sido afinal das fechaduras e das vedações e outras minudências que já estavam em mau estado de funcionamento há 20 anos. E que por azar não se mudam sozinhas... Ou talvez se mudem só de 21 em 21 anos.

Assim, talvez seja melhor seguir os conselhos do ex-governante e esperar que da próxima vez tenham mais sorte com o tempo e aprendam a controlar incêndios, porque já se viu que fugir não é sempre a melhor estratégia. Por isso, ponham trancas à porta porque já nem das fechaduras velhas nos protegem, quanto mais dos fogos. Que triste fado...