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Expresso

E depois do fim do QE?

A política monetária do BCE começa o novo ano de 2018 com alguma turbulência política interna, que se espera venha a aumentar até Setembro. Os nervos de aço de Mário Draghi vão ser novamente postos à prova pelos seus governadores nas curvas e contracurvas até chegar a recta final do seu mandato.

Na típica conferência de imprensa de Draghi, após mais uma reunião de governadores do BCE na passada quinta-feira, o seu notório esforço para não abordar o tema do fim do programa de compra de activos consistiu em garantir que continuará a adquirir até 30 mil milhões de euros mensais em obrigações até Setembro deste ano. Mas essa garantia já não chega...

A estratégia de comunicação da política monetária deverá começar a ser alterada já em Março por imposição dos mercados, embora o BCE prefira esperar até Junho para confirmar os sinais de aumento sustentado da inflação para os níveis pretendidos de 2%.

Estando o programa fixado até Setembro, a necessidade de previsibilidade dos mercados irá aumentar a pressão sobre o BCE para dar uma data final do programa de compra de activos. Um dos objectivos do BCE em adiar este anúncio é adiar também a discussão do calendário do subsequente aumento das taxas de juro.

Será hoje conhecida a estimativa do Eurostat para o crescimento do PIB da zona euro no último trimestre de 2017, que deverá reforçar a confiança numa fase de crescimento, e já não apenas de recuperação.

A missão do BCE é assim cada vez mais de normalização da sua política monetária sem contrariar as expectativas dos mercados e evitar uma subida abrupta das taxas de juro, pois a questão principal já não é se o programa acaba mesmo em Setembro ou se é prolongado mais alguns meses. A questão é que o programa de compra de activos do BCE vai acabar.

Desta forma, a atenção dos mercados estará no período de tempo que o BCE levará a aumentar as taxas de juro directoras, o que já não acontece desde 2011, após o final do programa de compra de activos.

Vale a pena recordar que a Reserva Federal dos EUA procedeu ao primeiro aumento da sua taxa de juro directora um ano após o fim do programa de Quantitative Easing americano, pelo que o benchmark já existe e será adoptado pelas expectativas dos mercados.

No final, este processo de normalização terá um impacto significativo nas finanças das famílias, das empresas e dos países, especialmente em pequenos países, empresas e famílias com fracos recursos e excesso de dívida, aumentando os seus custos de financiamento ou até restringindo o seu acesso a dívida.

Portugal tem assim mais um ano e meio para desfrutar da extraordinária política monetária do BCE que favorece a extraordinária política orçamental actual.