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Expresso

O (in)esperado “abraço de urso”

As eleições em Portugal continuam a surpreender. Desta vez foram as autárquicas que provocaram mais um terramoto político na organização dos partidos e da política nacional. Da esquerda à direita, todos viram as regras a serem alteradas a meio do jogo.

A leitura nacional das eleições autárquicas é sempre inevitável, mas este ano é mais complicada. A vitória esmagadora do PS não esmagou apenas o PSD, pois amputou um terço dos municípios do PCP, alguns dos quais bastiões comunistas desde o 25 de Abril.

Após este inesperado exercício de overshooting eleitoral, é notória a dificuldade do PS e dos elementos do governo em convencerem alguém que a sua vitória foi também a vitória da Esquerda.

O “abraço de urso” dado pelo PS aos seus parceiros na governação foi brutal, e de tão exagerado irá causar sérios ferimentos no PCP e alguns arranhões no BE, que sempre teve menos a perder e assim continua.

Costa não resistiu a humilhar o seu arqui-inimigo Passos Coelho, num acerto de contas com a história das legislativas de há 2 anos, arremessando a sua vitória histórica nestas autárquicas para derrubar o PSD, a quem terá roubado muito eleitorado local em 13 concelhos que “voaram” para o PS.

Mas a emoção venceu a razão desta vez. A emoção da sua vitória, festejada exuberantemente como se fosse toda à custa da derrota do PSD, ofuscou a racionalidade estratégica de Costa na gestão dos seus apoios à esquerda, ignorando a pesada derrota no caso do PCP e o auto-entitulado “resultado modesto” do BE.

Ao contrário do que era tradicional acontecer neste tipo de eleições, nem todos puderam dizer que saíram vencedores, como era costume. Pela primeira vez o PCP reconheceu que saiu derrotado, ainda que tenha frisado que a derrota era das populações que se iriam arrepender, e o BE registou uns modestos 3,3% dos votos a nível nacional, assumindo-se como um partido meramente urbano.

A felicidade do PS é por isso compreensível em qualquer leitura nacional possível. Na mesma jogada retira votos ao centro direita e à esquerda, por motivos diferentes e até agora aparentemente inconciliáveis.

Na ausência de um PSD forte, o eleitorado centro direita prefere um governo PS sem o apoio das esquerdas, enquanto o eleitorado de esquerda premeia o PS pela narrativa de reposição de rendimentos, por si utilizada até à exaustão.

Entretanto a dívida pública superou o bonito número de 250 mil milhões de euros em Agosto, mais um recorde batido por Portugal, a provar que a página da austeridade está mesmo virada.

Agora sem austeridade e sem Passos Coelho como Inimigo n. 1, a vida política nacional voltará à normalidade do “cada um por si”, com um PS à beira da maioria absoluta. Mas Costa sempre soube que assim seria...