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Expresso

O BCE de Mario aguenta este Euro?

As políticas monetárias não-convencionais de Mario Draghi à frente do Banco Central Europeu (BCE) parecem ter cumprido alguns dos seus principais objetivos. Tal como Mario tinha prometido, o BCE excedeu todas as expectativas na ajuda concedida à economia da União Europeia (UE).

O programa de compra de ativos (QE) foi decisivo para o aumento do crédito à economia e sua recuperação, bem como para o afastamento do perigo de deflação, muito embora a inflação ainda não esteja ao nível desejado de quase 2%.

No entanto, e passados mais de 2 anos do início do programa de QE do BCE, o facto da taxa de inflação continuar a ficar abaixo de todas as estimativas de mercado e do próprio BCE é preocupante.

Na atual recuperação económica global, que tem sido uma das mais lentas historicamente, a redução da taxa de desemprego em vários países, nomeadamente em Portugal, não gerou inflação nos salários, ao contrário do que tinha acontecido até aqui.

Vários fatores sociais e demográficos terão certamente contribuído para este desequilíbrio na teoria económica, diminuindo o poder negocial dos trabalhadores no mercado de trabalho, tais como o envelhecimento da população ativa, o aumento da precariedade dos novos trabalhadores, a perda de importância dos sindicatos e o aumento dos trabalhadores por conta-própria, bem como o papel desempenhado pela tecnologia e pela globalização.

A falta de inflação salarial possui forte impacto no fraco crescimento da taxa de inflação total, pelo que limita fortemente a normalização das taxas de juro no curto e médio prazo, continuando a levar os investidores a procurar outras classes de ativos alternativos, em busca de rentabilidades superiores.

A transmissão dos efeitos do QE para a economia real e para a inflação tem sido feita essencialmente através da taxa de câmbio, reduzindo as taxas de juro das dívidas públicas, o que levou à desvalorização do Euro. Este efeito suportou o aumento das exportações dos estados membros e o aumento da inflação importada.

Apesar da politica cambial do Euro não ser um objetivo explicito do BCE, o seu efeito de transmissão do QE pode afetar a estabilidade de preços no medio prazo, pelo que a recente valorização do Euro face ao Dólar para máximos desde o início do QE, é o seu principal motivo de preocupação atualmente.

Por isso Mario disse a semana passada, no final de mais uma reunião de governadores do BCE, que continuava disposto a continuar com os estímulos monetários para atingir o objetivo da taxa de inflação, usufruindo a economia dos seus efeitos colaterais positivos, como tem vindo a acontecer ate agora. E obviamente para desvalorizar o Euro.

Portugal pode assim continuar a suspirar de alívio, pois irá continuar a desfrutar da boleia do BCE, nas taxas de juro da dívida pública e na desvalorização do Euro. Portanto continua tudo bem por cá…