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Expresso

Os usos e costumes já não são o que eram...

Há um ano vivíamos o primeiro dia do resto das nossas vidas como campeões europeus de futebol. O momento inesquecível e o feito memorável continuarão a fazer os portugueses felizes por muitos mais anos.

Iniciou-se por essa altura uma nova era motivacional na sociedade portuguesa, muito aproveitada pelas classes políticas dominantes que muito capitalizaram nessa onda de aspiração que banhou Portugal de norte a sul.

É nesse clima de êxtase nacional que surge, pouco tempo depois, a notícia sobre as viagens de políticos, pagas pelos patrocinadores da seleção nacional, para assistirem a jogos de Portugal no campeonato europeu de futebol em França.

Num país com tantas leis que não são cumpridas, muitas vezes por falta de fiscalização e consequente penalização, é fácil descurar leis que (quase) nunca são aplicadas. Especialmente as que são feitas já com uma cláusula de salvaguarda que propositadamente dá azo a interpretações subjectivas, tal como os usos e costumes que sejam socialmente aceites...

E como é do conhecimento geral, em Portugal existem muitos usos e costumes que são socialmente aceites, mas que não estão inteiramente de acordo com a lei. A famosa “cunha” ilustra bem a real dimensão da cultura de “favor” e de “vantagem” de que agora tanto se fala.

Desta forma, os usos e costumes socialmente aceites pelos políticos, da esquerda à direita, que aceitaram os convites desinteressados de um grande patrocinador privado, são partilhados por deputados, membros do governo, presidentes de câmara e pela maioria dos eleitores em Portugal.

Na altura, a reduzida pressão social aliada ao facto de quase todos os partidos políticos terem telhados de vidro, ajudaram o governo a brilhar com a estrondosa ideia de elaborar um código de conduta para referência futura. Pois se fosse aplicado retroactivamente, os membros do governo envolvidos teriam eticamente que ser demitidos logo nesse verão.

A partir dessa altura as boas notícias não pareciam parar de chegar a Portugal. E o sentimento que nada de mal podia acontecer a Portugal, ao governo e aos portugueses em geral, alastrou a todos os campeões nacionais.

Mas afinal parece que os usos e costumes já não são o que eram. Vem agora o ministério público, um ano após a polémica, com interpretação legal diferente do socialmente aceite, para choque de muitos políticos. E logo no dia de aniversário dos campeões europeus de futebol.

É quase socialmente inaceitável... mas pode ajudar a renovar o sentido de ética da sociedade portuguesa.