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Expresso

Expectativas altas ou euforia excessiva?

Muito já se disse sobre este fim de semana inesquecível que os portugueses viveram. É virtualmente impossível ficar indiferente à enxurrada de sensações e sentimentos causados nalgumas pessoas pela presença do Papa, pelo Tetra campeonato conquistado pelo Benfica noutras e pela vitória de Salvador Sobral no festival da Eurovisão naqueles que ainda se lembravam que tal evento existia.

Houve emoções para todos os gostos e em doses industriais, vitaminando até aqueles que ainda conseguiam sentir-se deprimidos ou irrelevantes depois de terem vencido o campeonato europeu de futebol, de verem António Guterres como secretário geral da ONU e de terem um governo tão improvável quanto estável.

As boas notícias são tantas e tão boas que mesmo que os média quisessem, não conseguiam fazer má imprensa contra quem quer que fosse. Nem contra o Presidente da República, nem contra o Governo, nem mesmo contra a oposição...

O estado letárgico outrora típico dos portugueses deu lugar a um estado anestesiado numa primeira fase, para agora estar a evoluir para um estado geral de euforia popular. Talvez por excesso de anestesia, como por vezes acontece nalguns casos clínicos.

É claramente preferível viver num mundo melhor, onde todos acreditam que podem fazer a diferença, onde as oportunidades são iguais para todos, onde alguns se convencem que têm uma boa vida ou que todos podem vir a tê-la.

Como se tudo isto não fosse já suficiente, ainda temos o crescimento económico a aumentar, o desemprego a diminuir, os rendimentos a subirem e o optimismo a ficar irritante, pois os valores registados por estas variáveis económicas não são suficientes para justificarem as altas expectativas criadas nos portugueses.

Embora a economia também viva de boas expectativas, a racionalidade dos agentes económicos poderá ficar beliscada pelo facto de não considerarem todas a variáveis envolvidas na sustentabilidade da actividade económica.

A actual necessidade de investimento na economia nacional, fortemente descapitalizada, fará aumentar o recurso a dívida financeira e aumentará a exposição das empresas à volatilidade das taxas de juro, que se prevê aumentar depois das eleições da Alemanha no final deste ano.

Por essa altura, o aumento da inflação e a recuperação económica da Europa influenciará negativamente a actual política expansionista do BCE, que mantém as taxas de juro pagas por Portugal artificialmente reduzidas, através da compra massiva da sua dívida pública.

Da mesma forma, o aumento do já elevado endividamento dos particulares com a recente subida de empréstimos para compra de habitação terá um efeito desastroso nas finanças pessoais de cada agregado que se deixar levar pela emoção. Sem ter a razão do seu lado...

Nas empresas, tal como na vida, devemos esperar o melhor mas preparar-nos para o pior...