Siga-nos

Perfil

Expresso

A insustentável leveza do poder…

Celebrou-se ontem em Portugal mais um dia do trabalhador em plena paz social e comunhão ideológica, num quase perfeito clima de estabilidade política.

As farpas lançadas ao governo pela esquerda nos discursos comemorativos, não são mais do que fogo de vista para animar as respetivas hostes partidárias, que já começam a perceber a política de austeridade do governo de esquerda.

Em ano de eleições, ainda que autárquicas, não só o faro político dos intervenientes fica naturalmente mais apurado, como nesta maioria de geometria variável à esquerda se torna determinante a contagem de espingardas a meio do mandato legislativo.

As centrais sindicais tentam disfarçar a sua nova normalidade de ausência das ruas com novas ameaças genéricas de greve para o futuro, especialmente para reivindicar melhores condições para os funcionários públicos.

No entretanto, e enquanto alguns andam distraídos ou com problemas de consciência, o governo continua o seu excelente trabalho de construção da futura maioria de esquerda. Para o caso de não conseguir obter maioria absoluta nas próximas legislativas.

E nada melhor que um choque com a realidade para afastar a esquerda de protesto das ruas e aproxima-las do poder. Principalmente quem protesta sem dominar sindicatos que possam controlar as ruas.

O recente relatório do grupo de trabalho sobre a sustentabilidade da dívida pública portuguesa, que juntou BE, PS e governo à mesma mesa, é disso um perfeito exemplo. As modestas propostas finais e respetivos efeitos, que não chegam “para reduzir significativamente o endividamento externo líquido do país”, são afinal opções para poupar gerindo a dívida, sem nenhuma solução radical.

A tão reclamada restruturação da dívida pública defendida com estrondo pelo BE nas ruas, e definida como a sua prioridade para 2017, é afinal pouco mais do que se tem feito até aqui… aumentar prazos, reduzir custos e aumentar receitas. Mas agora através de negociação com os credores da Troika, representando apenas cerca de 30% do total da dívida.

A necessidade de “derrubar” o muro da dívida pública defendida pelo BE como bandeira eleitoral, é assim substituída pela oportunidade de saltar o muro do poder e deixar para trás o PCP na nova variação geométrica da maioria de esquerda.

As ruas ficam assim mais calmas e a discussão política mais razoável, pelo que este pode ser o primeiro acordo de regime a ser alcançado que possa verdadeiramente sustentar uma negociação com Bruxelas, pois a maioria das conclusões e propostas do referido grupo de trabalho serão facilmente apoiadas pela direita.