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Expresso

Sorte de principiante à grande e à francesa

Afinal foi a velha França de “Mon amie Mitterrand”, como diria Mário Soares, a salvar a União Europeia da esperada e temida implosão, pelo menos por agora. A velha disputa com os britânicos sobre a liderança da Europa fica agora finalmente resolvida. O eixo franco-alemão será mantido, independentemente do resultado das eleições na Alemanha.

Os franceses resistem assim ao moderno populismo que se apoderou das ilhas britânicas ao largo da União Europeia e esperemos que voltem a resistir na 2ª volta das eleições presidenciais, ao populista mundo imaginário de Le Pen. Agora os franceses têm mais uma desculpa para poderem gabar-se da sua superioridade intelectual e moral perante os britânicos e americanos.

Não menos interessante é verificar que o centro ideológico volta a desempenhar a sua primordial função de reunir o consenso democrático e de ainda se conseguir assumir como novidade capaz de fazer diferente, ainda que apenas para derrotar uma extrema direita e esquerda que poderiam, e a extrema direita ainda poderá, pôr em causa o projeto europeu.

Apesar de menos de metade dos franceses ter votado contra a União Europeia e respetivas bases, por motivos mais ou menos populistas de esquerda e direita, a verdade é que a sua vontade e a sua clara desilusão com o projeto europeu não poderão ser ignoradas por muito mais tempo.

No entanto, não é plausível que Macron consiga fazer algo muito diferente do que outros antes de si já tentaram, e não conseguiram. Ainda que Macron possa ser melhor intencionado e melhor preparado, não tem a base de apoio necessária para se impor e implementar as suas políticas. Nem tão pouco para formar um governo coeso e unitário que possa chefiar enquanto Presidente, pois agora terá que fazer cedências, e serão muitas.

O que lhe valeu a passagem à segunda volta das eleições será o grande problema para a sua governação. Ter conseguido afastar-se dos partidos históricos da esquerda e da direita, profundamente conotados com as “elites” e hoje em dia considerados tóxicos, permitiu-lhe aparecer isolado como independente no centro do espectro político e encostar Le Pen às cordas demagógicas do populismo baseado no medo do “povo”.

Considerando que as “elites” continuaram a votar afastadas do populismo de esquerda e direita, Macron anteviu ou apenas usufruiu da sorte de ainda existir uma “elite” contente com o “status quo” em França. Mas a julgar pelas duas anteriores eleições e a tendência crescente nelas patente, da extrema direita e agora também de esquerda, o “povo” descontente continua a aumentar e a ser atraído pelos populismos e demagogias extremistas que vendem esperança a troco de medo.

Assim, a revolução francesa contra a Europa foi mais uma vez adiada. Desta vez um cavaleiro solitário estava no local certo à hora certa para defender a sua dama amada. Esperemos que os reforços cheguem a tempo para aproveitar esta segunda oportunidade.

Neste dia comemorativo da revolução portuguesa, devemos acreditar que a sorte continuará a proteger os audazes, como aconteceu em Portugal há 43 anos atrás. Desta vez em França e em toda a Europa.