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Expresso

Viagens de finalistas low-cost ou pura incompetência?

Somos um povo de brandos costumes. Ou éramos? A mais recente viagem de finalistas do ensino secundário de escolas portuguesas teve como destino paradisíaco, sem surpresa, a Costa do Sol em Espanha.

Torremolinos foi, mais uma vez, o local escolhido para a emancipação dos nossos jovens, que irão no futuro pagar as reformas de grande parte dos portugueses. Mas que ainda não sabem. Por isso é bom que aproveitem enquanto podem. Enquanto possuem o luxo da proteção dos seus pais. E do seu financiamento.

É bom saber que a vida dos portugueses está hoje genericamente melhor do que há vinte anos atrás. Nesses longínquos anos, a viagem de finalistas só acontecia na universidade. E não era para todos.

Para muitos era a primeira vez que iriam sair do país, e para quase todos, seria a primeira vez que sairiam da alçada protetora e controladora da sua família. A excitação era muita, mas o sentido de responsabilidade conseguia ser ainda maior. Pela novidade e pelo esforço financeiro familiar realizado para festejar o curso universitário, já por si um fardo para muitas famílias.

Apesar dos fracos recursos financeiros típicos da altura, cada um dos alunos universitários já tinha vivido a sua quota parte em modo de diversão, com maior ou menor exuberância. É certo que o ambiente e a maturidade de jovens universitários de então poderão ainda assim ser diferentes dos vividos hoje em dia no liceu.

No entanto, o que deveria continuar constante, ou até ter melhorado nestes 20 anos, é a perceção social e económica da vida em sociedade, dos mais elementares conceitos económicos e da dinâmica de grupo, tão notória nestes casos.

Um grupo de 1.000 jovens de 18 anos, fechados num hotel ou resort com bar aberto localizado num país estrangeiro, longe das famílias e dos professores, únicas figuras a quem ainda reconhecem alguma autoridade, não parece ser uma atividade económica completamente isenta de risco. Para o hotel, para os jovens, para a organização e para os familiares.

É certo que a economia se faz de oferta e de procura, mas não esqueçamos que o preço deverá sempre ter em conta o risco inerente da atividade. Maior risco deverá sempre ser acompanhado por maior recompensa, ou neste caso preço mais elevado. Não parece ter sido o caso.

É penoso ver um elementar erro de pricing ser confundido por familiares dos jovens com a justificação dos danos causados ao prestador do serviço como uma resposta à falta de limpeza, de boa alimentação e de simpatia dos responsáveis do hotel. Há muito que a vingança não é geralmente aceite como moeda de troca numa transação comercial.

Não menos importante e preocupante é a diferença de expectativas entre as partes do negócio, patente na justificação dos responsáveis do hotel ao justificarem a sua incompetência de adequar o preço ao risco da sua atividade, defendendo que pensavam tratar-se de um grupo de peregrinos. Em Torremolinos…

A incompetência económica não é, no entanto, desculpa para o comportamento dos jovens, dos familiares, dos organizadores e dos hoteleiros. Parecem existir neste caso bastantes mais incompetências, para além da económica…