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Expresso

Vice-Governador do Banco Central demite-se por conflitos de interesse… em Inglaterra

Muito se tem falado do Banco de Portugal, do seu governador, dos seus administradores e, mais recentemente, do seu conselho consultivo. Principalmente sobre a sua independência, a sua competência, a nomeação para os seus cargos executivos e consultivos, bem como sobre os seus respectivos conflitos de interesse potenciais.

Não querendo politizar as questões que envolvem o regulador e supervisor do sistema financeiro português, já suficientemente politizadas pelos próprios intervenientes e pelo governo e respectivos apoiantes na Assembleia da República, considero que a comparação com os mesmos reguladores de outros países, com sistemas financeiros mais saudáveis e eficientes que o português, possa ajudar a pôr em perspectiva o problema e até mesmo chegar a alguma conclusão. Como de resto acontece em tantas outras situações, mediante a comparação com as melhores práticas internacionais.

Também em Inglaterra o governador do banco central já foi mais temido do que actualmente. Também em Inglaterra os acontecimentos recentes de abuso das leis de mercado forçaram o banco central a modernizar-se e a reforçar as suas competências de regulação e supervisão, numa tentativa de acompanhar os cada vez mais sofisticados meios dos regulados para evitar ou ultrapassar o regulador e a regulação.

O caso de Charlotte Hogg é suficiente para percebermos a diferença fundamental entre os dois bancos centrais e a sua forma de agir, de serem avaliados, de serem pressionados pelos políticos e pela opinião pública (que no caso de Inglaterra ainda existe) e de tentarem manter o respeito e influência no mercado financeiro que regulam.

Hogg foi nomeada Chief Operating Officer (COO) do Banco de Inglaterra em 2013 pelo seu Governador Mark Carney, função criada por este para modernizar o banco central e aumentar a sua eficácia e transparência no uso do seu enorme poder sobre o mercado.

O seu currículo brilhante e o seu excelente trabalho desde então estiveram na origem da sua nomeação no início deste mês para Vice-Governador do banco central, numa clara antevisão de quem seria o sucessor do actual governador em 2019.

Mas também em Inglaterra o diabo está nos detalhes… como esta recente nomeação já assume uma componente e exposição política mais forte, foram os deputados a descobrir que Hogg não tinha revelado nos formulários de candidatura inicial que o seu irmão trabalhava no Banco de Investimento do Barclays, supervisionado pelo banco central.

Considerando que Hogg enquanto COO teve a responsabilidade de criar um novo código de conduta para o banco central, que incumpriu durante anos, pouco importa se o seu erro de preenchimento do formulário de admissão foi lapso ou esquecimento.

Não terá certamente afectado as suas funções, mas este erro de Hogg terá tido mais impacto na reputação do banco do que na sua própria reputação. Porque enquanto o seu erro terá sido um lapso, a não identificação do erro mostra incompetência dos serviços do banco central em não terem descoberto o erro antes.

A acusação dos políticos e da opinião pública centra-se na cultura de complacência interna do banco, que promove a responsabilização pessoal de comportamentos pouco éticos dos intervenientes no sistema financeiro mas que não consegue sequer supervisionar os seus trabalhadores.

Hogg não foi nem seria demitida por esta omissão, pois as suas relações familiares eram bem conhecidas no meio financeiro em Londres e seriam impossíveis de esconder, mesmo que Hogg quisesse. Hogg demitiu-se para limitar os danos reputacionais. Seus e principalmente do Banco de Inglaterra.

A conclusão a retirar desta comparação é sua…