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Expresso

Novas regras democráticas, mas pouco

Após mais de 40 anos de democracia, vivem-se hoje tempos de mudança democrática em Portugal. Como dizia recentemente o Presidente da Assembleia da República, em jeito de defesa das acusações da minoria de parcialidade na condução dos trabalhos parlamentares, as regras democráticas mudaram e a oposição minoritária tem que habituar-se.

Bonita lição democrática que defende a ditadura da maioria na governação da minoria. Noutros tempos seria razão mais do que suficiente para mais uma revolução de esquerda, mas agora com a esquerda revolucionária no poder, apenas dá direito a umas gracinhas jocosas sobre a minoria ressabiada que apenas quer fazer mal aos portugueses.

A cultura democrática actual da maioria defende que quem está contra a maioria está contra o país, sendo por isso um alvo a abater e a substituir por alguém iluminado que entenda e valorize a maioria e os seus salvadores da pátria.

A tomada do poder típica de novos governos em funções, é desta vez feita não só em larga escala como também com muito maior profundidade, atingindo toda e qualquer empresa pública e organismo do Estado. Desta vez nem os reguladores e entidades independentes estão a salvo da capilaridade da influência da maioria no aparelho do

Estado.

Ao contrário do que se pensava até agora, afinal a maioria é que sabe o que é melhor para todos, sobre tudo, em especial para a minoria, que deve agradecer tamanha bondade. Não entendendo porque razão a minoria continua a insistir em discordar das boas e desinteressadas intenções da maioria de esquerda.

As perseguições a que assistimos recentemente, aos opositores de pensamento ou a quem se atreve a discordar da maioria, assume especial relevância no caso do Conselho das Finanças Públicas. Este órgão técnico e independente é a mais recente vítima do regime com tiques autoritários que a maioria instituiu para educar o país.

É bem sintomática a tirada espectacular e muito democrática de um deputado ainda mais democrático e orgulhoso apoiante do governo, sobre a presidente de um órgão independente que ainda não aprendeu que não pode defender opiniões próprias nem discordar das políticas económicas e orçamentais do governo: “Milagre é Teodora Cardoso ainda ter salário e ocupar o lugar que ocupa".

Que se cuidem aqueles que teimam em desobedecer à cartilha dos partidos da maioria. Democracia é muito bonita mas a minoria tem que saber comportar-se. E a maioria bem sabe que os independentes são sempre muito imprevisíveis...